RECENSÃO CRÍTICA

O Primeiro de Janeiro, “das Artes das Letras”, Porto, 14 de Julho de 2008 

Artigo de Ivo Barroso sobre a obra “Algo indecifravelmente veloz” (edium, 2007) de Andityas Soares de Moura
Ivo Barroso, Escritor e crítico literário brasileiro 

Das leituras: Andityas: algo previsivelmente veloz 

Andityas Soares de Moura teve a felicidade de encontrar na Editora Edium, de Portugal, a representação gráfica condigna de sua requintada poesia. O livro Algo indecifravelmente veloz *, que reúne a seleção pericial de sua produção até agora, é um tomo em que tudo é belo: a capa, o papel, o espaçamento, a tipologia – contrastando com a precariedade do tratamento gráfico com que em geral são impressos os livros de poesia no Brasil. 

 
Diga-se que esse jovem mineiro, desde seu batismo poético (o livro Ofuscações, de 1997, por ele não considerado na presente obra), até seu crisma com Lentus in umbra (2001/2002), sempre foi considerado entre nós um escritor estrangeiro, sua poesia confundida com tradução. Explica-se: diante do pauperismo intelectual da maioria dos poetas jovens do Brasil, ter uma cultura humanística da extensão da sua, o domínio de falares e escritas galegos e provençais, a intimidade com temas trovadorescos e do português arcaico, e ainda estar à vontade com as inflexões modernas de Pound e de Eliot, é algo quase inconcebível neste país em que ter cultura soa politicamente incorreto.  
Já com Lentus in umbra, Andityas nos dava os prolegômenos de sua temática e amostras do rigoroso tratamento a que submetia sua lírica. O livro desse latinista, helenista, estilista, se destinava provavelmente a uma meia-dúzia de colegas-cabeça, daqui e da Espanha, onde o livro foi traduzido. Também ele tradutor, colocou a galega Rosalía de Castro ao alcance de (quase todos os) leitores brasileiros, bem como os poemas do Isso, de Juan Gelman (ambos em 2004).  
OS enCANTOS (de 2003) – ciclo galaico-provençal seguido de quatro poemas-cobra – são um morceau de bravoure, mas também uma espécie de recaída: exibição de estudioso egresso de bibliotecas medievais; tem muito de leitura e pouco de vivência. O jovem poeta está escondido num burel e mal se lhe vê a ponta do nariz. O poema inicial ave leve, no entanto, é, ao contrário, dos tempos do finado concretismo, no seu estágio de cachorro-vai-cachorro-vem: “prata brilha branco/ branco brilha prata”. O livro inteiro pertence àquela fase da poesia de Andityas visivelmente comprometida com sua identificação com a literatura galáico-portuguesa: os temas (canções de amigo, etc.), as construções (mia señor, etc). Era tempo de lhe dizerem que, na contra-corrente dos luminares paulistas, dele se espera não “mais provençais”, mas chega de provençais.  
Andityas começou a dizer a que veio com seu (ou sua) FOMEFORTE, que, além de seus poemas originais, inclui duas ou três traduções rigorosas, como o expressivo Prece-poema para o soldado americano, de Juan Grecco y Morales, escrito em sefardita. Como todo poeta jovem que se preza (ou deseja situar-se), Andityas rende ainda suas homenagens de abertura a Pound e aos provençais – dois espólios difíceis de se alienar – mas logo adquire voz e volume próprios e cristaliza alguns dos mais belos poemas de amor na série Estampar, onde o erotismo se transfigura na mais tangível vitória da linguagem sobre o pensamento. Absolutamente senhor de um tema difícil (Caminho da mãe), Andityas alcança um pitch superado apenas pelo Pasos lejanos, do peruano Cesar Vallejo. Por fim, o poema A Moura, que aparece como sendo traduzido do místico sufi Ibn Al-Darmin, é de tão perfeita realização, pelo ritmo de dança gitana, pela escolha rigorosa das palavras, pelo seu envolvimento sensorial, que dificilmente poderia ter sido concebido em outra língua senão a do próprio Andityas (P.S.: O título do livro nada tem a ver com o fracassado programa governamental). 
A antologia termina com uma série de inéditos que atestam sua maturidade poética. Liberto do fascínio pelos falares galegos, ousa e consegue ser ele mesmo, mostrar-se de rosto inteiro, sem cogula. Canção do Mestre Celestial tem diapasão hierático, oracular, numa linguagem explosiva, cascateante, alcançando crescendos de corifeu. E Língua de fogo do não é o poema-fleuve, a mostra de grande fôlego, a homenagem sutil ao todo-sempre Carlos. Mas sutileza de linguagem, desnorteio de imagens, síncopes ritmais luzem em fagulhas de poemas menores (em extensão) como Lamento, Clara jóia, A carne triste e A palavra. A lucidez paradoxal do hermético. O senso da cadência, o encontro inaudito das palavras. Uma esperada ascensão: previsivelmente veloz!

 

O VÔO DESLOCADO DE ALGO INDECIFRAVELMENTE VELOZ (Andityas Soares de Moura, edium, 2007), POR LEONARDO GONÇALVES

Leonardo Gonçalves, autor de das infimidades (invento, 2004). Traduziu Gérard de Nerval, Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire, William Blake (Crisálida, 2005), Juan Gelman (UnB, 2004), Molière (Crisálida, 2002), entre outros.

Existem escritores que, nascidos em certo lugar, mereceriam outra nacionalidade. Um caso clássico é Joseph Conrad, um polonês que celebrizou-se com romances escritos em língua inglesa. Outro é T. S. Eliot: um estadunidense de Missouri que tornou-se o poeta mais inglês de seu país. Também passaria facilmente por um inglês, não fosse o idioma, Jorge Luis Borges. E daí para o francês Gérard de Nerval, lembrado pelo filósofo Emil Cioran como um possível poeta alemão. Aliás, o próprio Cioran, um romeno que renunciou ao seu idioma natal para escrever somente na língua de Rousseau, que não era francês, mas suíço. Nem estou falando de autores como Luís de Camões e Gil Vicente, que colaboraram tanto para a literatura portuguesa quanto a castelhana. Eu ia começar este artigo meio à moda de Juan Gelman: Havia uma vez/um poeta português/ Nascido numa cidade pequena/de Minas Gerais chamada Barbacena. Mas eis que a brincadeira me flagra no susto, exatamente no instante em que tenho em minha frente um exemplar de Algo indecifravelmente veloz, antologia poética de  Andityas Soares de Moura publicada no começo de 2008 na cidade de San Mamede de Infesta, Portugal, pela Edium Editores. Já de cara podemos ler as palavras de João Rasteiro: “sem dúvida, hoje, um dos mais expressivos poetas da poesia contemporânea brasileira”. E Xavier Zarco complementa: “Uma poesia que dispõe da capacidade de metamorfose frente ao olhar de espanto de cada um de nós”. O que nos remete ao galego Xosé Lois García, tratando de OS enCANTOS: “Para Andityas, a poesia é ese gran milagre de redención e emoción que nos queda aos humanos para liberarnos”. Então, pensando nesse lusitano deslocado, imaginava evocar a fama da sua cidade natal em torno aos hospícios. Mas antes de incorrer numa frase politicamente incorreta, eu folheio o Crítica e clínica, coletânea de ensaios de Gilles Deleuze cuja epígrafe, tirada de Marcel Proust, diz: “Os belos livros estão escritos numa espécie de língua estrangeira”. E é aqui que Andityas foge para além das fronteiras lingüísticas, ficcionalizando toda possibilidade de ortodoxia, numa viagem às profundezas do idioma, região onde os limites caem trazendo a nostalgia de tempos em que as letras ibéricas não possuíam distâncias abismais. Viagem que começa na Roma antiga. Leiase, em Lentus in umbra, poemas como “PAX ROMANA”, “EPIGRAMMATA”, ou a suíte-poema “CONTRAPVNCTVS”, de cinco sessões, concluindo-se numa “Modinha” com “memórias dos banhos quentes de Tebas” (que não deixa de remeter à helenomania dos latinos). É a ideia de uma poesia que passe sempre pelo crivo da razão. Não exatamente uma poesia racionalista, mas que foge de qualquer automatismo em favor de uma dicção visivelmente manipulada. Uma poesia dos filhos de Apolo. Não o Apolo do dionisíaco Nietzsche, mas o de Delfos: o deus da loucura profética. Sendo assim, é válido todo tipo de destruição sintática, o que torna alguns poemas como que engolidos para dentro, afônicos. Dividindo as sombras, em meio a uma inteligência espirituosa, ele tenta achar a chave-de-ouro de cada poema, como quem conclui uma conversa. “Estás pisando o solo de sangue”, avisa, e súbito, num passeio pelas frases finais, nos perguntamos se o caminho é sem fim. Andityas se delicia com jogos labirínticos, perdendo-se em simultaneidades, sinestesias e jogos de armar: “ainda tenho a primeira/mordida guardada em uma/caixinha de veludo”. A parte monumental da antologia, por sua inventividade e labor, fica na sessão destinada aos poemas de OS enCANTOS. Na viagem da língua, nos deparamos com ninguém menos que a velha Galícia, olho d’água da língua portuguesa. Mas não é um paraíso apenas para filólogos: ali o jogo se radicaliza numa re-significação da poesia medieval, com seus troubadours. A cantiga toma forma e sentido, lançando-se para fora, feita para o planger das cordas e a narrativa borgiana, em que passeiam  falares provençais, catalães, italianos, franceses, galegos. Mas se as origens do idioma estão na Idade Média, Andityas fabrica uma língua medieval futurista. Não apenas revisita Don Denis, Arnaut Daniel, Marcabru, Guillem de Cabestanh, Bertrant de Born e Marie de France: ele reconduz o pensamento dos antigos em nacos de palavras, explorando espacialmente os sentidos de cada verso, imagem, som. Um programa poético radical, em que a subjetividade se desdobra em mutações estilísticas. O leitor verá que os poemas de FOMEFORTE sintetizam experiências poéticas diversificadas, tais como as traduções de Juan Gelman, Rosalía de Castro e Clément Marot. No processo constante de re-elaboração das técnicas, a escritura encaminha-se para uma economia dos artifícios. E o fim radical (vale a pena ressaltar: radical no sentido de ir à raiz) se converterá numa secura da forma, expressa nos poemas inéditos ao final do livro. Ali, já não há mais os versos afônicos. A fala projetada para fora dá visibilidade à persona que se constrói entre as palavras. São poemas de quem aprendeu o peso do verbo e sabe atirar com ele. Aquele que fizer uma leitura linear da antologia pode passar todo o livro sentindo um certo lirismo aristocrático, feito de palavras não muito palatáveis. Mas, ao se deparar com os poemas inéditos em tom de protesto, verá uma inesperada rebeldia. Uma rebeldia amarga e pouco utópica. “Eu que sempre fui lírico”, ele diz, “canto agora ao senhor das moscas”. Falei em viagem. Um português deslocado. Talvez a própria coragem de Andityas em dedicar-se à poesia faça dele um deslocado. A poesia, nesse caso, sendo um atestado de insanidade. O que me lembra as palavras de Waly Salomão no seu “Contradiscurso: do cultivo de uma dicção da diferença”: “Sem ser profeta e sem profetismo, a voz do poeta é voz clamando no deserto”. É esse lunatismo que faz possível um sujeito nascido aqui poder ser cidadão de acolá. E embora diga que “as palavras são só palavras” e que “não se pode escrever o poema”, ele os escreve. E isso mereceria um estudo à parte. Mas, voltando a Deleuze, “a literatura é uma saúde”. Um devir moura. Um devir solitude. Passar o pássaro. Algo indecifravelmente veloz.

 

 

Artigo de opinião em Jornal Brasileiro de José Eduardo Martins sobre “Crónicas contra o esquecimento”, edium editores 2006, da autoria do Arq. António Meneres.

A Crônica é um gênero literário especial. Reunidas em coletânea, ficam a evidenciar ao longo do tempo, à maneira de um conta gotas, o corpus de um autor. Assemelha-se, em parte, à missiva, pois esta tipifica as mensagens a destinatários os mais diversos, aquela estabelece um solilóquio em que, paulatinamente, o olhar do cronista cerca suas preferências, ou até idiossincrasias.
António Menéres é arquiteto. Este registro é fundamental para o entendimento de Crónicas Contra o Esquecimento (Matosinhos, Edium, 2006, 231 pág.). O autor viaja à sua infância e de lá sobrevoa as planuras da lembrança com uma nitidez absoluta, sem nuvens a embaçar a visão lúdica e onírica. Nascido em 1930 em Matosinhos, ao lado de Leça da Palmeira, Menéres, com formação mergulhada na precisão das estruturas e dos projetos, não perde jamais a flama reverencial aos primeiros anos de alegria. As duas cidades são constantes e amorosas referências. Próximas do Porto, é contudo esse binômio o básico fulcro de suas crônicas. Revisitadas, as pequenas urbes revolvem cinzas resultantes da ação predadora de interesses, por vezes inconfessos, do progresso. O autor está permanentemente a insistir na necessidade de preservação. Se o rio que atravessava Leça em sua infância transformou-se num filete, ainda assim lá está ele com suas parcas águas em direção ao mar. Constata a existência, pois é parte de seu acervo de recordações. A Festa do Senhor de Matosinhos é lembrada sob a égide carinhosa daquele que dela participou tantas vezes. Festejo sacro-profano, da comunidade inteira, mas enraizado na fé interior de cada indivíduo que o freqüenta, após um longo ano de espera.
Rememorar o passado é ter em mente Dona Cacildinha, a professora dos primeiros anos que, após boas notas do miúdo Antoninho, oferece-lhe Os Três Porquinhos com bonita dedicatória. Importa considerar o efeito desse livro, ” para mim tão valioso como um diploma que, muitos anos depois, também me foi conferido mas que é um bom livro de contos infantis, isso mesmo: Lombada vermelha, bem viva ainda, com o título Os três porquinhos numa edição da bem tripeira Livraria Lello & Irmão – Porto, que começava como todas as histórias: Uma vez eram três porquinhos, gordos, muito alegres, de corpo rosado, focinho risonho…”. Menéres, a partir desse livro pueril, apreende o gosto pela leitura. Diz-nos em plena maturidade: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir adivinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para me facilitar outros e novos convívios”. Tornar-se-ia amante dos alfarrabistas, das raridades lidas e cultuadas. Ter encontrado no Rio de Janeiro uma edição de A Formosa Lusitânia, de Lady Jackson, livro prefaciado e anotado pelo notável romancista Camilo Castelo Branco, uma alegria, pois a obra fora impressa no Porto, em 1877. Faz um longo comentário sobre os personagens envolvidos.
Menéres venera o passado literário de Portugal. Desfilam em suas crônicas, entre tantos ilustres: Camões, Camilo Castelo Branco, Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Antônio Nobre, Miguel Torga. Deste último, uma frase que deveria ser sempre um axioma: Quando um escritor escreve uma coisa significativa, fá-lo tendo em conta toda uma legião de escritores que o precederam. O debruçar nesse culto é evidente, mas Menéres jamais permanece na citação ou no comentário superficial. Obras lidas, analisadas e mais, amorosamente guardadas. A familiaridade com figuras tão marcantes talvez tenha contribuído para o estilo esmerado do autor das Crónicas Contra o Esquecimento, a provocar no leitor um prazer adicional.
Apesar de confessar que “nunca me foi possível distinguir um dó dum ré, o que não me impede de escutar, quase quotidianamente, boa música…” é evidente a sua admiração por Óscar da Silva (1870-1958), notável pianista e compositor de méritos, nascido na cidade do Porto e falecido em Leça da Palmeira. Sessenta anos separam o compositor – um dos últimos alunos de Clara Schumann – do cronista, mas indelével fica a imagem sonora: “Rememoro os inúmeros momentos naquela sala de Leça, em que os filhos da casa e eu o ouvíamos tocar, explicando pormenores e contando ocorrências sempre curiosas – quantas vezes com ironia…” , comenta o autor. A admiração fá-lo propagar vida e obra do homenageado. Louve-se o empenho das Instituições de Matosinhos nessa constante recuperação de vulto significativo da cultura musical em Portugal. O arquiteto sensível foi, inclusive, o autor do projeto do túmulo do pianista compositor.
Não obstante as homenagens merecidas aos que permaneceram pela qualidade cultural, Menéres pormenoriza-se também nos personagens do cotidiano de Matosinhos ou Leça, cidadãos tratados com ternura, dir-se-ia, verdadeiro outro culto aos que se foram e participaram da comunidade como um todo.
Sem pieguices, os textos evocam, sugerem, apontam soluções, rememoram, provocam.
Nem todas as Crônicas são lembranças diáfanas. Revolta-se contra a destruição de monumentos históricos ou, ainda, indigna-se profundamente contra vandalismos. Sentir o período em que se vive, se sob um prisma estabelece até o inconformismo, sob ângulo outro permite a evocação do passado e a vivência atual de uma de suas paixões, as águas marítimas: “o fascínio que sobre mim sempre exerceu aquele ‘Diálogo do Vento e do Mar’, parafraseando o título dado por Debussy a um de seus Três Esboços Sinfônicos”. Velejaria, como hobby, pelo litoral lusitano, a compreender a sensação de liberdade. Traça o histórico de sua dinastia de homens ligados ao mar. Vocação entre vocações. Não é um acaso a citação, em crônica sobre Leça antiga, dos versos finais do soneto As algas, de António Nobre: E eu cismo, ao ver esses trapos, / Que as algas são os farrapos / Dos vestidos das sereias! Esse alumbramento pelo mar à busca do vento, do ondular, e quem sabe…das sereias.
A crônica São Sebastião do Alto e a Minha Família Brasileira revela a avó materna, brasileira, e os ensinamentos passados à progenitora de Menéres: “Minha mãe teve pois uma educação com sabor carioca e recordo que, bem menino, tínhamos sempre feijão preto aos sábados, que delícia Santo Deus!” Outra verdadeira delícia é a leitura de Crónicas contra o Esquecimento. Poucos autores souberam transmitir tão sinceramente, e com tanta riqueza de pormenores, o cotidiano através do caminhar, assim como a descoberta dos livros que serve de acúmulo ao simplesmente vivido. Vale a pena percorrer essas preciosas crônicas.

Crónicas contra o Esquecimento (Chronicles against Oblivion):
In his book, the Portuguese architect António Menéres remembers, among other facts, events of his childhood spent in Matosinhos, delving into the emotions of experiencing such events, tells us of his love of books and music and of his indignation at the destruction of historic monuments of Portugal.

José Eduardo Martins (emérito compositor brasileiro) nasceu em 1938 na cidade de São Paulo, onde começou os seus estudos com o professor russo José Kliass. Mais tarde, trabalhou durante alguns anos em Paris, com Marguerite Long e Jean Doyen. Como pianista, Martins realizou ciclos com as integrais de Debussy, J-P. Rameau, Moussorgsky e Francisco de Lacerda. Apresentou, igualmente, em primeira audição mundial cerca de 100 composições contemporâneas de autores de diversos países. José Eduardo Martins tem uma lista considerável de CDs, gravados na Bélgica, Bulgária e Portugal, e lançados pela Labor (U.S.A.), PKP (Bélgica), Portugaler (Portugal) e sobretudo pelo selo De Rode Pomp da Bélgica Flamenga, organização à qual Martins mantém estreita ligação musical desde 1996. Martins é autor de diversos livros sobre música, de uma centena de artigos publicados em diversas revistas especializadas de vários países, e realiza paralelamente edições críticas das obras do compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852-1931), por ele redescoberto. José Eduardo Martins é Professor Catedrático da Universidade de São Paulo e Doutor Honoris Causa pela Universidade Constantin Brancusi da Roménia. Recebeu do governo brasileiro a Ordem do Rio Branco, uma das honrarias mais significativas do Brasil.

 

 

Opinião de Barroso da Fonte in Jornal  “O Povo de Barroso” sobre “A Sociedade Complexa – Teorias da Comunicação” de André Veríssimo, edium editores, 2007.

 Mais dois autores de Barroso: André Veríssimo e Carlos Machado
O reino maravilhoso que o concelho de Montalegre é e que cada vez mais se afirma em todos os seus domínios, acaba de revelar-se através da obra de mais dois escritores: Carlos Machado e André Veríssimo. Do primeiro tenho andado a ler e a saborear a bela ficção de «O Homem que viveu duas vezes». Um romance de estreia que decorre em Terras de Barroso, onde o Engº Carlos Machado nasceu e regressa sempre que pode. Esta sua obra granjeou ao subdirector Geral da Ministério da administração Interna o cobiçado «Prémio Alves Redol», criado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e dado à estampa pela Editorial Presença. Dele falaremos em nova oportunidade.
Hoje falo aos Barrosões de um novo livro do Barrosão (natural de Peirezes) Mário André Veríssimo que é professor Universitário e Investigador. Vive e trabalha no Porto, frequentando os meios científicos e culturais. Muitos dos mais famosos jornalistas que nos passam pela frente, nas televisões, nas rádios e nos jornais diários foram seus alunos na Escola Superior de Jornalismo, hoje integrada da Universidade do Porto. especializou-se nas áreas da Ciência da Comunicação, em psicologia, Ciência política e Filosofia em que é Mestre e doutorando. Colabora regularmente na imprensa regional (ex. O Povo de Barroso) e diária, nomeadamente no Primeiro de Janeiro, onde assina semanalmente a rubrica «A Busca Sem Fim».
Como autor publicou já várias obras, entre as quais: A Crise do Homem -uma Ética do tempo comum, Emmanuel Levinas -uma vida entre Parêntesis (1906-1995); estratégias Criativas, (2004), A intriga Ética (2001), A Sociedade Complexa, traduziu o livro «Da Evasão de Emmanuel Levinas».
Na penúltima semana de Fevereiro foi apresentado o seu mais recente livro «A Sociedade Complexa – teorias da Comunicação» com 192 páginas, com a chancela da Edium Editores: ediumeditores@gmail.com.
Vinte e sete reflexões em torno dos complexos da sociedade, mais um prefácio constituem o cerne destas teorias da comunicação. Escrito com grande clareza, em linguagem técnica apurada e com uma percepção intelectual insuspeita, este volume aborda um tema palpitante, complexo e cada vez mais actual.
No Prefácio assinado pelo jornalista José Maria Cameira. Lê-se, a terminar: «o leitor (destas Teorias da Comunicação) perceberá que o homem é um ser sempre em busca. Essa é uma indagação filosófica, o sentimento de território, de preocupação pelo que vem depois da vida terrestre, e sobretudo pelo que está acima de nós, o Altíssimo, que nos leva a pensar que o que fazemos deve ser bem feito dentro da perfeição humana, mas nunca demasiadamente perfeito, para equivalermos ou para pensarmos Aquilo do qual nos aproximamos mas nunca chegamos a completar».

 

 

 

 

SOBRE A POESIA DE XAVIER ZARCO

 Fernando Guimarães, in Crónica de Poesia, Jornal de Letras em 31 de Janeiro de 2008.

 O livro de Xavier Zarco, que desde 1998 publicou vários outros, intitula-se Variações sobre tema de Vítor Matos e Sá: Invenção de Eros, tendo precisamente obtido o prémio literário Vítor Matos e Sá que a Faculdade de Letras de Coimbra promove. Neste livro, em 22 poemas, são utilizados destacadamente pequenas frases que reunidas configuram um poema de Vítor Matos e Sá, um poeta também dos anos 50 cuja obra foi não há muito tempo reeditada (Poesias de Vítor Matos e Sá, edição de Ana Paula C. Mendes, ed. Campo das Letras.)
A poesia de Vítor Matos e Sá firma-se através de um lirismo reflexivo, densamente expressivo mediante o recurso a uma construção metaforizante forte. Ora é este tipo de expressão que no livro de Xavier Zarco – o qual, pelo título, poderia sugerir um desenvolvimento que decaísse na paráfrase – se encontra de todo ausente, pelo modo como privilegia uma voz que lhe é própria, contrastando com aquela que serviu de ponto de partida. Há, neste livro, a procura de uma linguagem que se torna quase elementar como se vê aqui:

Aproximei-me da raiz
das palavras e dos gestos
quando colhi das horas

os instantes

em que os olhos dizem
o que a boca silencia.

Leia-se ainda este outro poema:

Uma voz no refúgio do ventre
de um búzio,

reclama por mim

como se cativa
a minha face fosse
desse nome.

 

No Artes e Letras, Fevereiro de 1997

O corpo e a letra deste Autor são um “vaso onde as vozes se entregam ao desejo de voar”. Para Xavier Zarco, efectivamente, fazer Poesia é escrever “o murmúrio do vento no dorso alado dos cavalos do verso”. Amada, alada, e aureolada lição, murmurar ou ler este livro é dar asas ao dervixe e à dança que existe no cosmos.

  

Del Schimmelpfeng, em 24 de Janeiro de 2007

Por certo, em alguns momentos – talvez nem sejam tão raros! – somos tomados por uma avassaladora inveja de textos alheios, como se deles quiséssemos usurpar a autoria, transformando-os em pedaços de nós mesmos, rebentos extemporâneos daquele brilho de imaginação que, por algum inexplicável motivo do qual não nos apercebemos, foge-nos naquele exato instante em que pretendíamos – oh, doce inocência! – coagulá-los na virgem folha de papel… Uma inveja saudável, creio eu. Afinal, na medida em que reconhecemos no texto do outro valores que gostaríamos fossem nossos, tal fato, de alguma maneira, servirá como força motriz ensejadora de uma busca incansável da superação daquilo que entendemos, no momento, como limite. Ora, se o outro fez, também podemos fazer, não é lógico? Nem sempre. Mas não há como negar que funciona inequivocamente como mola propulsora da imaginação e, quando bem trabalhada, pode gerar belos frutos… Devo confessar que sou tomado, inteiramente, por essa sensação ao ler a poesia e a prosa de Xavier Zarco. E, confesso, não há como não sê-lo, uma vez que, na integralidade do seu texto, paira uma perfeição orgânica, viva, pulsante, que se recria e se avoluma em cada palavra que, volátil, ganha vestimenta diversa, variando conforme sopram os ventos imantados de suas metáforas iluminadas… Há, sem dúvida alguma, um liame mágico entre o autor e aquele que o compartilha, gerando vasta energia criadora que se espraia e transpassa o brilho do que se pretendeu, revelando uma diversidade de caminhos que, antes, cegos e insensíveis, não havíamos tido a oportunidade de experimentar. Um fruto que, apesar da aparência indevassável, mostra-se extremamente suculento… Causa-me assombro tamanha produção! Incessante, viril, devastadoramente bela. É como se ele próprio fosse feito das palavras que reinventa, um ser etéreo amalgamado em poesia, que exala e transpira encantamento e que reveste o papel, antes límpido e sem graça, com a suavidade delirante da criação literária… Tive o prazer e a honra de guarnecer seus versos com meus traços amadores, porém esforçados. Na verdade, nem conseguia imaginar que minhas ilustrações pudessem, algum dia, atravessar o oceano como imagens decompostas em bits navegando por cabos óticos, em ondas faiscantes… Algo tão louco e, na mesma medida, instigante. O primeiro deles foi o delicado “O Guardador da Águas”, Prêmio de Poesia Vítor Matos e Sá – 2004, organizado pelo Conselho Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O convite, inesperado, foi-me feito por Xavier Zarco através de e-mail – bendita tecnologia! – e aceito de pronto, no que pese aquele friozinho na espinha que sentimos quando mergulhamos em algo desconhecido. E, de fato, ilustrar a capa de um livro premiado de um poeta d´além mar era vôo que jamais havia pensado alçar… Depois surgiu o convite para “O Livro do Regresso” (Prémio de Poesia Raúl de Carvalho – 2005, promovido pela Câmara Municipal do Alvito). Esse ainda ficará em suspense… E, por fim, “Variações sobre tema de Vítor Matos e Sá: Invenção de Eros”, que foi distinguido com o Prémio de Poesia Vítor Matos e Sá – 2007, certame organizado pelo Conselho Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tentei dar, em todos eles, na medida das minhas possibilidades, as cores e a forma que imaginei ao penetrar no mundo do poeta. Deparei-me, nessa viagem, com um universo fantástico, onde as palavras – todas elas! – restam impregnadas de significados novos e surpreendentes. Palavras que, justapostas na medida certa, trazem a esperança de que tudo AINDA pode dar certo e que essa é uma vida que – felizmente e com poesia! – vale a pena ser vivida…





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