LIVROS NARRATIVA

Prefácio à obra por Arsénio Mota

Entrou José Salgadinho na roda dos meus conhecimentos pessoais há uns bons quarenta anos. Durante todo este tempo vi-o sempre calmo e sereno, calado e observador. É pessoa capaz de surpreender muita gente que julgue conhecê-lo de perto, vendo-se agora de repente com este livro nas mãos como se o volume venha caído do céu mais miraculoso. Foi, afinal, o que também me aconteceu quando o amigo Zé Salgadinho pôs diante de mim esta sua obra. Que não é, atenção, de estreia, tendo presente O Roubo da Capela e outros contos, obra editada em 1997 pelo “Jornal de Matosinhos”. Resultou de uma selecção de contos antes dados à estampa naquele semanário matosinhense. Este amigo pedia-me uma apresentação para este segundo título da sua bibliografia e eu tive de anuir por dever de amizade, sabendo embora, como então lhe recordei, quanto os prefácios costumam sobrar na opinião dos leitores. É isto, pelo menos, o que me ensina a experiência de autor literário já com cinquenta anos de percurso. Mas a surpresa acontece, e em ponto grande, pois Salgadinho anda igualmente há cerca de meio século a colaborar na imprensa, publicando contos e poemas (que naquelas páginas efémeras ficam em dispersão), enquanto ele se conserva na atitude comedida e discreta que o caracteriza, que é a de quem dispensa exibicionismos. Ainda hoje tem escassa obra editada em livro e, no entanto, Salgadinho escreve longamente, manifestando um irresistível, um persistente gosto pela literatura. É mais um caso de modéstia. Um exemplo. O seu devotamento à criação como que dispensa a corporização em título bibliográfico para arrumar na estante. Basta-lhe, em regra, surgir à tona dos jornais e, quase sempre, nos da proximidade (geográfica ou outra). Pois ainda bem que esta nova editora matosinhense resolve lançar Mãos Vazias e outros contos! Não pense o leitor que vai encontrar aqui ficções light das tais muito mediáticas que o mercado consome a correr e a correr ficam esquecidas para darem lugar a mais ficções light! Nada disso. Não é esse, de modo nenhum, o caminho deste autor, e isso até se demonstra no seu apego ao género Conto nas narrativas que vem dando a público. Género prestigioso e popular há uns decénios (quando havia jornais com suplementos literários e rubricas próprias que inseriam contos, que eram lidos com prazer por exemplo em trajectos emprego-casa, ou à noite), caiu numa espécie de limbo – incompreensível porque os ritmos da leitura se querem cada vez mais rápidos para atender à famosa “falta de tempo” – sorte esta por sinal muito lamentável. Beneficiado na ficção ficou apenas o género Romance, que pontifica como rei quase absoluto. Saúdo no autor matosinhense esta opção, que restaura em nós o prazer da história curta, ou short story, que se lê de um fôlego, mas onde pode espelhar-se o talento ou mesmo o génio do narrador. Naturalmente, um crítico formatado pelo pós-modernismo tenderia a categorizar como subalterno este género literário. E decerto não se ficaria por aí. Descobriria nestas páginas laivos fortes da estética neo-realista que marcou sobretudo os anos ’50 do século passado. Para verberar a opção e assim se afirmar integrado nas correntes da moda. Acontece, porém, que José Salgadinho se declara frio para as modas. Não quer estar no efémero do que muda à superfície, quer-se antes colocado no que importa, junto das “pedras vivas” do edifício social (ele que se sente também, de corpo inteiro e desde sempre, uma “pedra viva”). Nelas está a garantia do futuro. Ganha todo o sentido, portanto, a “presença” que nestes contos têm a gente humilde e trabalhadora, a eterna sacrificada, que se caleja, sua e passa fome, lutando contra os preconceitos culturais e toda a rigidez do sistema socioeconómico. José Salgadinho encara o mundo conhecido, onde a pobreza é a regra e a riqueza a excepção (quantos pobres são precisos para fazer um único milionário?), e, como praticante da democracia, alinha ao lado da maioria, dos pobres, para os defender dos detentores da riqueza e do poder acumulados. Vai mesmo ao ponto de afirmar explicitamente a luta de classes, preceito marxista basilar do materialismo histórico. Para o autor de Mãos Vazias e outros contos, trata-se de uma evidência para quem, como ele, sabe compreender as imposições do mundo e tem a coragem de as negar na medida em que as declara injustas. Impregna, pois, as páginas deste livro uma “mensagem” plena de humanidade, de solidariedade social calorosa e fraterna, dirigida ao povo mais pobre e desvalido. Avulta assim a “mensagem”, isto é, o conteúdo, sobre o estilo, ou seja, a forma. De facto, Salgadinho cuida pouco de requintes da expressão literária, para focar sobretudo o que conta. Interessa-lhe pouco ou nada fazer “literatura” arranjadinha e, muito mais, comunicar. Comunicar humanidade autêntica, vivida na carne, que é exactamente o que cada vez menos aparece na caterva dos romances em curso! Disso fala, em especial, o conto longo (quase uma novela) que abre e dá o título ao volume. Decorre no período da Segunda Grande Guerra, que corresponde ao da adolescência do autor. Mas o leitor encontra a seguir narrativas situadas em tempos e ambientes assaz diversos, pelo que deverá ter em conta que neste volume se recolhem textos escritos ao longo de muitos anos, pormenor este que aponta para a idade de José Salgadinho (nascido, note-se, em 1929). Com alguma ponta de exagero, apetece imaginar saídas da sua pessoal boca, em testemunho, as palavras deste parágrafo que leio em “O pagamento da multa”: “Agora na reforma, após sessenta anos de trabalho e sem saúde, vivo muito das recordações dessas viagens. Se descrevesse todas as situações, agradáveis e desagradáveis, por que passei, não chegaria, estou certo, um livro de trezentas páginas. Isso, porém, não acontecerá porque não sou escritor, mas antes um viajante saudosista que gosta de contar uma ou outra peripécia dessas viagens.” Salgadinho, viajante que trespassou os anos de sete décadas e continua rijo, gosta sem dúvida de contar, desfiando memórias. Sabe encontrar o registo certo para comunicar bem com o povo que é o seu e que procura como leitor ideal para o que escreve. Povo que luta e labuta nas fábricas, nos escritórios e nas ruas, nem sempre quanto é preciso para defender o seu direito à dignidade e à vida. Mas que pode indignar-se ouvindo agora, numa rádio pública, um comentador todo neoliberal afirmar descaradamente, entre duas baforadas de charuto, que o principal dever social de um homem é só este, enriquecer! O desaforo encontra aqui resposta no conto “O salteador”, figura de Robin Wood ou de José do Telhado algarvio desterrado para África e cantado por António Aleixo nos versos: “Mas eu, sem querer ser juiz / vi que ele se despedia / da mulher com quem vivia / numa amizade sincera / e não vi nele a tal fera / que em toda a parte aparecia”. Mas vale dizer, em suma, que Mãos Vazias e outros contos nos reconcilia com o melhor da literatura.

Mãos vazias e outros contos, José Salgadinho, edium editores, 2006.

 

 

 

Prefácio à obra por Ana Sousa

O homem que escreveu este livro é uma força em marcha pela vida, a sua e a dos outros. Os mais desatentos pensarão que estes contos são demasiado simples, ingénuos ou até infantis. Perdoem-me, mas essa atitude será talvez devida à dificuldade que têm em acreditar em mentes e corações cristalinos, aqueles que se atribuem somente a crianças. Eu sei, contudo, que há adultos capazes do sonho transparente aos olhos dos outros. Talvez porque tenham o privilégio ou a obrigação de atentar mais ao espírito e ao sentimento do que ao corpo que os traiu. Talvez porque a sua percepção do evidente seja mais fácil do que para aqueles são distraídos por um cenário mais fútil ou mais abrangente. Talvez apenas porque isso lhes é inato. É assim o Américo, desconcertante na sua atenção, na sua leitura, na sua preocupação e na sua franqueza. Ávido leitor de todos os matizes do sentimento humano não se limita à sua percepção imediata e questiona, discute e incentiva a descoberta daquilo que está para além do que normalmente vemos. Não satisfeito com a curiosidade procura também caminhos e soluções para aquilo que é a grande preocupação da sua vida: a felicidade e o bem-estar de todos, estejam ou não ao seu alcance. Mais ainda, sonha sempre com a forma de estender a sua expressiva teia de boas vontades a quem possa estendê-la ainda mais até que, neste nosso pequeno universo ninguém se sinta sozinho, limitado, indigno, injustiçado ou pura e simplesmente triste. Estes contos têm, para além do que superficialmente podemos ver, pedacinhos do Américo, da sua vida, e das vidas de muitas pessoas com quem se cruzou e que foram alvo da sua observação atenta. Revoltas, tristezas, frustrações, sonhos feitos e desfeitos, pureza de sentimentos, vontade de sentir tudo o que há para sentir e para viver, a atitude de querer sempre mais; em todas estas pequenas histórias se transmite uma mensagem mais ou menos significativa dependendo de quem a lê ou da altura da vida em que o faz. O fio condutor deste livro é, na minha leitura, a surpresa que a vida nos reserva em todos os bons e maus momentos provocados pelos seus revezes. Não há causa sem efeito e a vida de cada um de nós depende sempre da forma como encaramos os pequenos ou grandes imprevistos que nos aparecem. Nestes contos poderemos ler a vontade de enfrentar todos eles, seja qual for a dimensão das suas consequências, com abertura de espírito, alegria de viver e mantendo sempre vivos os sonhos “ingénuos” de criança. Os mesmos sonhos que nos permitem os grandes sentimentos em toda a sua plenitude: o amor, a amizade, a generosidade, a alegria… Todos estamos sujeitos, em qualquer momento, a uma grande mudança. Todos podemos ter que “aprender a viver” de um dia para o outro com o desaparecimento de alguém que amamos, uma cegueira, uma paralisia, uma qualquer “limitação” que nunca ninguém equacionou antes. São esses os momentos em que é mais difícil ver a simplicidade. São esses os momentos em que procuramos justificações, causas, culpas, desculpas e, quantas vezes, encontramos tão somente pena de nós próprios. O Américo dá-nos exemplo de vida e de vidas para sabermos, para termos a certeza absoluta que viver, pura e simplesmente viver, é sempre a melhor e mais gratificante experiência ao alcance de qualquer ser humano.

 Centelha de Vida, Américo Lisboa Azevedo, edium editores, 2006.

 

 

 

 

Prefácio da 1.ª Edição por Júlio Couto

Muitas seriam as formas para iniciar a abordagem de um livro que é muito mais do que isso, mas só consigo encontrar dois vectores para o que lhes vai passar pelos olhos daqui em diante. Por dever de profissão, e por uma verdadeira paixão pela leitura, passaram-me já pelas mãos alguns milhares de volumes de todos os géneros. Muitos, bons, outros menos bons, alguns muito bons e outros intragáveis. E só muito raramente me surgiu um dos «tais», daqueles que é impossível largar antes do fim. Sabem como é, não sabem? Ficamos muitas vezes presos ao estilo, ao enredo, à forma, mas só muito raramente nos sentimos empolgados por um texto que nos obrigue a percorrê-lo linha a linha, a deixar que uma lágrima teimosa nos venha aos olhos, que um sorriso de cumplicidade nos faça piscar o olho ao autor ou, um coração que fica cheio de ternura ou, porque não, a entrar em pleno na intriga de um bom policial. Por outro lado já lá vão dezoito anos em que lidamos com cegos, quer gravando livros para cassetes na Biblioteca Sonora da Biblioteca Pública Municipal do Porto, quer dirigindo-os em peças de teatro, quer em visitas guiadas no Porto ou em Lisboa, quer – e isso é que é importante ­como amigo! E como amigo habituei-me a ouvir uns quantos casos de cegos – que nunca de «ceguinhos» – que passaram por mim com toda a sua carga de medos, frustrações, alegrias, vitórias, dissabores, fracassos, desejos… vida ao fim e ao cabo, vivida no dia-a-dia, no silêncio de uma interioridade a negro, ainda que, muitas vezes, exteriorizada em riso e cor. Por estas duas grandes razões podem agora imaginar a surpresa ao ler este livro, todo ele um depoimento vivo e vivido por uma mulher de invulgar coragem – a coragem de ser gente – e, mais ainda, a beleza de o contar em palavras simples, mas sinceras, sem arrebiques ou artificialismos, sem procurar encontrar o vocábulo mais bonito, mas tão só com o sentido desejo de testemunhar todo um passado para que isso sirva de ajuda ao futuro de outros tantos deficientes. Há já muitos anos que não lia um manuscrito como este, de um só fôlego, e chegar ao fim com um travo amargo na boca – aquele travo de quem reconhece que ainda fez tão pouco para ajudar quantos lutam para vencer a sua cegueira. Sem vergonha, ou falsa humildade, posso afirmar que uma das maiores alegrias que senti foi quando, aqui há anos, uma amiga cega, ao acabar o seu curso superior, me telefonou para dizer: «Acabei o meu curso, e com a ajuda da tua voz!» Para nós, aqueles que dia-a-dia, no isolamento de uma cabine, gravamos livros para deficientes, e que quase nunca sabemos se os destinatários tirarão proveito desse trabalho, é uma alegria muito grande saber que esta mulher teve a coragem de o pôr em letra de forma e deixar sair neste livro toda a sua vida com gritos de dor, mas também de luta e de esperança. Para terminar em poucas palavras: – Obrigado, Maria dos Prazeres! Ainda bem que o fizeste, e muito obrigado pelo orgulho que me deste em poder subscrever estas palavras.

 Prefácio da 2.ª Edição por Joaquim Queirós

Nas nossas mãos estamos a apertar um livro que nos parece leve pelo seu volume de páginas, mas quando os nossos olhos percorrerem os muitos parágrafos e para além do negro dos caracteres, se pararmos em cada parágrafo, fazendo dessa atitude um período de reflexão, ele é duro, é extenso, é forte, é um mundo de drama e amor, pois sentiremos a força da vida em todos os seus envolvimentos inundados de lágrimas que testemunham momentos de desespero e de alegria, de drama profundo e de felicidade, de saber sofrer, mas sabendo agarrar a vida. Nas palavras vertidas para o papel por Maria dos Prazeres, escritas com a brancura líquida do marejar lacrimal de olhos sem luz, transmite a quem as lê, a inesquecível possibilidade de poder avaliar o peso da vida em todos os seus caminhos de sofrimento e revolta, de desgraça, mas do querer e saber amarrar o pulso à corda para saltar do precipício. Escreve ela: “Nunca fiz mal a ninguém, nunca prejudiquei ninguém. Por quê tão grande castigo?” Mas logo a seguir as nossas entranhas se revolvem ao verem o filme do sofrimento, quando nos faz estremecer com a sua capacidade de resignação de quem é atormentado pela desgraça e que decide: “fui-me apercebendo que, na minha frente, só havia dois caminhos: o da vida ou o da morte. Por qual me decidir? Escolhi a vida.” Para Maria dos Prazeres não foi fácil a opção. Ter uma vida de felicidade e vê-la, repentinamente, até por deficiente diagnóstico médico, atirada para um abismo, para o desespero, sentindo que se havia despenhado ao encontro do fim. Mas ela lutou, foi mulher-coragem. Verteu torrentes de lágrimas, fez os seus serem feitos farrapos humanos de desespero por verem a companheira e a mãe prostrada, vivendo num outro mundo, primeiro a procurar vencer a morte e, depois, a agarrar-se à vida e a levantar-se do chão. O livro mostra-nos quatro mulheres. A primeira que despontou para a felicidade de ver a vida correr na sua frente prenhe de amor; a segunda vergada pelo sofrimento; a terceira a trepar do precipício onde caíra; e a quarta, aquela que cega passou a ver doutra forma as pessoas, as coisas, o saltar dos sentimentos e a perceber a vida e a transmitir a força e a felicidade que a muitos escasseava. Lemos algures que um homem, um alemão, também atacado de forte doença e da qual resultara  cegueira total,  ele reagiu ao infortúnio afirmando que depois de deixar de ver começou a ver melhor, pois tudo lhe parecia bom. Segundo ele foi obrigado a reparar em situações que estavam silenciadas e levou-o a encarar bem de frente a realidade. Com a cegueira descobriu assuntos e perspectivas que tinha de ver de novo e foi obrigado a valorizar coisas na pessoa dele que até à perda da visão tinham passado desapercebidas. Dizia, ainda, que era difícil explicar como aprendera a relativizar os acontecimentos e, ao mesmo tempo valorizar a sua existência ao encontrar-se com mais assiduidade com Deus. Por isso, uma grande verdade encerra este livro. É que, perante Deus, somos cegos. Nós nada vemos. É Ele que nos vê e cegos tantas vezes porque não queremos ver A verdadeira beleza é aquela que de olhos fechados se vê melhor! Como Saint-Exupery escreveu: “Só se vê bem com os olhos do coração”. Foi o que aconteceu a Maria dos Prazeres ao ter força para agarrar a vida.

Agarrar a Vida, M.ª dos Prazeres Martins, edium editores, 2006.

 

 

 

 

Introdução a três vozes, A. Cunha e Silva, Carlos Porto e Elvira Castanheira

Eunícia Salgadinho cria estórias das gentes e lugares, escutando a oralidade das histórias – uma aqui: na taberna do largo da aldeia, outra ali: na sala de espera de um qualquer consultório, outra acolá: vozes à mesa de um café ou esplanada. Regista um dito, um dichote, uma graça no terreiro da dança, uma lágrima na mulher de ventre empinado a subir a calçada ou um grito surdo mas lancinante vindo daquela prisão. Então, as estórias enchem-se no olhar da autora e no seu imaginário. Levanta a mão e, à luz da vela, da lâmpada ou do sol, ela projecta marionetas no papel pousado no tampo da mesa; marionetas que dão vida própria ou ficcionada ao universo humano estampado nos seus contos. “Fragas” o recente livro, conta estórias de estar nas histórias dos outros, os que sonham desejos de justiça, carinho, humanismo, amor e lealdade. A autora é cerzideira dos seus personagens, e cerzir é mais difícil do que coser – cerzir é compor o roto. No rasgado, esburacado ou roto das estórias deste livro, fio a fio a autora teceu com as suas linhas a linha condutora do mundo real/irreal do velho, a viúva, o emigrante, o “general”, o Zêi ou a vovó Libânia. Nós, o povo, estamos lá!  A escritora conhece-nos! (A. Cunha e Silva)

Da Nice, que só não é uma velha amiga, porque é uma jovem, chega-me às mãos um conjunto de textos, cuja publicação se impõe. Através das histórias contadas em “Fragas”, surgem-nos as personagens, os conflitos, as dores mas também as alegrias pelas quais passa o que na vida de cada um é, ao mesmo tempo, o retrato tão sincero e credível quanto parece justo. Esse retrato de uma mini-sociedade na qual participamos e memória de todos nós. E assim é a vida, tentando enriquecê-la o muito ou pouco que podemos. Assim é a literatura pela qual a Nice criativamente se interessa. (Carlos Porto)

As estórias da Eunícia são viagens intemporais através dos seus “Eus” coloridas pela paleta da vida. Assim, há contos em que se revê, outros em que se encontra e aqueles em que se antevê, caminhando em direcção à Luz… aquela Luz Divina, a que uns chamam VIDA, outros PROVIDÊNCIA, mas que para a “nossa Eunícia”, se traduzem nestas “fragas” que, são afinal a verdadeira essência de SER MULHER como a Eugénia, a Maria, a Elisa, a vovó Libânia, a senhora Rosa… “fragas” com cheiro a terra húmida e ternura no olhar! (Maria Elvira Rodrigues Castanheira)

Fragas e outras estórias, Eunícia Salgadinho, edium editores, 2006.

 

 

 

Texto de António Rebordão Nevarro sobre a obra

As três primeiras partes deste livro põem-nos face a face com um homem sem atributos que ganha as noites para se aproximar de outra humanidade que os dias ocultam ou não deixam perceber. Regressa ao passado e dá jus ao seu nome entre descobertas e assombros, sente o horror da santidade (ou da raridade), a diferença, a libertação, a necessidade de se abrir aos outros (de os enfrentar). A sua mulher (ou a vaidade dela) vai-se amoldando a um novo modo de vida e a simbiose transforma-a em novo ser. Nos demais textos, ditos “InConSequentes”, umas vezes num tom intimista, outras em forma de curtos contos, de crónicas, de crítica social, de fábulas, de apontamentos diarísticos, aliam-se o sonho e o mistério, a alegria, a vida, a morte, a consciência-inconsciência do mundo, a dúvida e o fascínio, revelando facetas várias de uma singular sensibilidade, em que a poesia e prosa harmonio-samente se combinam e, como em “E eu a dizer que sim”, alcançam uma tensão dramática, digna de destaque.

Salvador, o Homem, e textos InConsequentes, Conceição Paulino, edium editores, 2007.

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto introdutório à obra, pelo próprio autor

 

Este livro está contado em linguagem antiga e fala de gente que nessa e dessa linguagem vive. É um contar de fins – fins de estrada e de caminhos – mas cheio de viveres, outros, diferentes, que é gente diferente também. Diferente mesmo entre si, se calhar retratos em letras a preto e branco das simbologias que têm marcado o estar aqui neste mundo, se calhar também à beira do fim tal e qual o conhecemos.

E por isso entendo este contar como uma afirmação pela vida porque, mesmo em linguagem antiga (já quase ninguém escreve assim!) dá ao que se conta e às letras a forma de viver.

O que resta de deus: uma história de desencantos, António M. Oliveira, edium editores, 2008.

 

 

 

 

 

 

 

Texto de badana, desta edição, da autoria de Camilo Almeida

Salgadinho não criou estes contos! São episódios da natureza humana que aqui aparecem transformados em contos que o tempo vago não deixou perder. Lavoisier ditou a lei: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Salgadinho publicou a portaria que regulamenta essa lei! Transforma o que existiu, para não deixar que se perca. O poeta não é um criador, é um transformador, um fingidor (como dizia Fernando Pessoa). A dada altura, inventa uma estória para fingir uma dúvida dolorosa ao reflectir na ignorância e obscurantismo que a virtude da senhora Ermelinda permitiu; o milagre de fazer, imediatamente, andar pelo seu pé um crente que chegara até ela de padiola: “Como havemos, um dia, de ser um país moderno, próspero e feliz, com tanta falta de cultura?” Neste livro, os contos e neles as palavras, fluem como as flores campestres nascem na natureza, sem serem semeadas. Salgadinho é um excelente conversador e nós lemos os seus contos sem nenhum esforço de leitura, como se estivéssemos sentados numa roda de amigos a ouvi-lo falar, contando ele próprio essas estórias e quase inalamos os odores dos lugares e sentimos as temperaturas dos ambientes. Só temos que lhe agradecer.

Contos do Tempo Vago, José Salgadinho, edium editores, 2008.

 

 

 

 

 

do prefácio à obra

Amor… uma simples e pequena palavra que tem o dom de mudar o mundo pelo poder do seu amplo significado. Foi, é, e continuará a ser, tema de milhares de livros e filmes, que atingem sempre os sentimentos de quem acredita ou quer acreditar que tudo pode ser possível, e que o amor é o verdadeiro motor da vida. Este romance de Carlos Bernardo, um jovem sensível e inteligente como só ele o sabe ser, transmite em palavras simples mas cheias de significado o porquê da palavra amor ser de uma importância tão grande. Quando comecei a ler esta obra, fiquei impressionado pela maneira como lá me senti representado, linha após linha, sentindo-me como que um personagem integrante da história, chegando a pensar para comigo: “Este personagem sou eu!”. A realidade de situações do nosso dia a dia que, normalmente consideramos banais, são abordadas neste livro numa perspectiva que tem a arte de nos transformar em leitores empolgados, relembrando-nos episódios da nossa adolescência, histórias que o próprio vento levou. Um livro que retrata o poder dessa nossa adolescência que tanto marca cada um de nós, de diversas formas, e que ensina a saber aproveitá-la nas situações boas e nas situações más e compreender isso como uma lição de vida: aprender a amar a vida e a viver o amor. A subtileza das palavras do autor ajuda-nos a compreender que o amor é um contraste entre dureza e beleza, rebeldia e entrega. São poucas as obras que conseguem realçar com tanta naturalidade situações do nosso dia a dia, que por vezes, sem darmos conta, são de uma importância vital para o resto das nossas vidas. Este romance tem o dom de surpreender em cada página lida e dá-nos uma vontade invulgar de chegar ao fim e voltar a ler e reler, em busca de mais alguma coisa que nos possa ter escapado. No fundo, este livro é uma forma inteligente de dizer que a vida pode ser rebelde como uma pequena mentira, mas trágica como um amor sem limites!

A Praia do Destino, Carlos Bernardo, edium editores, 2006

 

 





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