LIVROS ENSAIO

Introdução à obra pelo jornalista José Maria Cameira

 A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicação) é mais um livro de André Veríssimo, docente universitário, investigador e autor na área dos ensaíos de filosofia, da antropologia filosófica, da ética judaíca, especialmente da área dos estudos sapienciais ligados à Torá. É um especialista na área das Ciências da Comunicação e, especialmente, da Ética nas suas várias vertentes, de entre as quais se salientam a social e política. Desde há onze anos inspira-se em vários autores como Norberto Bobbio, Paul Valadier, Jurgen Habermas, Edgar Morin, Emmanuel Levinas, Boaventura Sousa Santos e Marina Themudo, de entre outros. Escreve desde há muito tempo em diversos jornais e revistas, de entre os quais em “O Primeiro de Janeiro” onde publica artigos sob o título genérico “A Busca Sem Fim”. Está ligado, também, ao Instituto Jurídico Interdisciplinar da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, à Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e foi professor na Escola Superior de Jornalismo, do Porto, onde tive o gosto e o prazer de o ter tido como meu mestre, em duas disciplinas no quarto ano no Curso de Comunicação Social, tendo sido igualmente o meu orientador na minha tese de licenciatura (Marcello Caetano e António de Spínola: a Federação “Frustrada”), que em Outubro de 2006 veio a ser editada pela Edium Editores. Actualmente é professor no Instituto Superior da Maia e colabora como docente convidado em várias pós-graduações no Instituto Piaget e na Universidade Moderna. É investigador de Direito nas faculdades de Direito da Universidade do Porto e na Universidade Clássica de Lisboa. André Veríssimo preocupa-se em desenvolver estudos sobre o diálogo entre religiões e culturas, sendo A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicação) um espelho desse esforço categorial, no sentido de aproximar a comunicação e o discurso entre as elites pensantes. A obra que se nos apresenta tem a preocupação em conjugar determinado tipo de obrigações ético discursivas, e mesmo meta-éticas, com a possibilidade de serem filtradas por leitores atentos que consigam ler o que está escrito no texto e mesmo aquilo que está para lá ou antes do texto. O público alvo deste livro é, portanto, universitário, que procura expandir o seu conhecimento e aprofundar o seu grau de saber. A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicação) trata de várias temáticas, transcorridas ao longo do índice, que abordam a noção da complexidade social a partir de um paradigma que pode ser de Egar Morin, um autor que muito aprecia, porque tal como ele gosta de ligar as coisas, os assuntos, fazendo uma articulação entre o mundo da cultura, da ciência, da filosofia, da política. O cruzamento entre esses mundos torna óbvia a prática interdisciplinária, que permite que a ligação entre as diversas disciplinas de natureza científica, filosófica, política, sociológica e histórica, em que as áreas das ciências sociais e humanas e a área das ciências puras se articulem num sentido de conjugação dos diversos interesses, paixões, gostos e saberes humanos. Dessa forma, perante o olhar atento do leitor, será fácil encontrar no livro essas vertentes tratadas, quer a partir da sensibilidade, quer a partir do gosto, quer a partir do fundamento e da arqueologia sociológica e filosófica, buscando o sentido da tolerância, do perdão (no caso dos textos respeitantes à cultura filosófica judaica) e do político numa sociedade liberal ou numa sociedade mais fechada (André Veríssimo aborda problemas que existiam nos países ditos socialistas, onde havia um desrespeito pelos direitos humanos).

 Partilha do conhecimento com o leitor

 Existe em A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicação) uma partilha com o leitor sobre determinados assuntos que não são comuns, porque respeitam a uma ordem do universal. A obra não contém em si uma perspectiva territorial do conhecimento no sentido em que o autor quisesse projectar uma espécie de maquinismo fechado, situando o leitor somente no confronto das preocupações diárias. Não é esse o caso, uma vez que o livro possui uma transversalidade e uma abertura a tudo a que diz respeito ao humanismo integral, à natureza da própria formulação social dos princípios políticos, subordinados à ética e comportamento filosófico de André Veríssimo, que tem a ver com o sentido universal do conhecimento que bebeu em autores franceses, alemães, ingleses, norte-americanos e israelitas. Essas fontes notam-se no livro, de entre os quais Jurgen Habermas, John Rowles, Norberto Bobbio, Pierre Bourdieu, Kant, Edgar Morin e Emmanuel Lavinas, de entre outros, exemplos claros da pluralidade de conhecimentos que a obra transporta. A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicação) pode ser entendida como um manancial, um risoma, para múltiplas descobertas intelectuais propostas ao leitor para que ele próprio as complete com o seu raciocínio e investigações. Os documentos estão ordenados de forma a que o leitor percepcione as pistas lançadas como peças de lego, atendendo a que André Veríssimo admite que haja determinado tipo de camadas geológicas semânticas em que estão agrupados determinados motivos, alguns ligados à tecnologia da comunicação e da informação, outros ao fundamento da arqueologia da política (ou seja aos fins da própria política, à questão da democracia, da censura, da liberdade, do contexto em que são feitas as acções dos cidadãos na sua forma organizada através de partidos ou movimentos sociais). (…)  O fio condutor do pensamento de A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicação) é a Ética bem como a sociologia política e cultural. No fundo uma sociologia ética, atendendo a que a Ética possui uma dupla existência, não só pela conotação que carrega do indivíduo a si mesmo como tem aquela situação na qual a ética mais se compagina, que é a sua operatividade relativamente a comunidades específicas e à identidade que existe entre essas comunidades e outras com as quais poderão estar em conflito. (…) A noção de ética que consta em A Sociedade Complexa (Teorias da Comunicção) é uma Ética Humana em contraponto com as éticas das sociedades fechadas ou a ética das tecnologias contemporâneas, que assumem como lógica um juridiscismo daquilo que é a abstracção pura do direito na sua correlacção aos fenómenos que advém de uma sociedade extremamente organizada. A Ética Existencial, patente nas páginas deste livro, mergulha no seu fundamento, traduzindo o olhar humano, a sua compaixão, o seu existir na qual o ser humando conta, não pelo facto de ser um número mas uma pessoa. Um Ser que tem um traço de Infinito na sua presença. Aliás, para André Veríssimo, a questão da Infinitude é absolutamente essencial atendendo a que o ser humano é o único que pode traduzir a ideia da transcendência. Nesse sentido, o significado da ética é traduzir o significado do Outro, até porque todos os homens existem no plural, em comunidade, só dessa forma nos realizamos. A condição humana é a do diálogo.

A Sociedade Complexa – Teorias da Comunicação, André Veríssimo, edium editores 2007.

 

  

 

 

 

Introdução à obra por Carlos Nelson Amador

A memória é uma arte que exige método e perseverança. E é com método e perseverança que a Eunícia, desde há anos, reúne entrevistas que aprofundam as impressivas marcas que nela deixaram personagens com que a vida a levou a cruzar-se, a entender-se, a desentender-se. A memória é a base do que se é. E ganha a sua coloração e sentido do que se é e do que se quer ser. Só quem sabe o que quer ser pode construir memória que vibre. E é este projecto, que se lhe conhece, que guiou o trabalho de Eunícia ao longo de anos. E que ela põe à nossa disposição em pequenos retratos de personagens que com a sua vida se cruzaram. Esta galeria de retratos que aqui nos deixa diz tanto da autora como dos retratados: a sua particularíssima atenção e carinho para com as mulheres, o afecto como desencadeador da memória, bem mais do que desafecto, o fascínio pelas delicadezas de pensamento e sentimento que medraram na árdua vida do “povo do mar”. Você que, como eu, vive nesta terra de Matosinhos e vem ganhando o hábito de se cruzar com gente, cada vez mais, a quem lhe é difícil pôr um nome, adivinhar uma vida, situar numa rede de relações, você é o convidado de Eunícia para esta breve viagem pela memória (dela, que a soube construir) de personagens que, quase todas, lhe vão provocar um lampejo: “Ah, aquela! Ah, aquele! Pois é, já me esquecia”. E fica o convite, este para ti, Eunícia: estes pequenos retratos estão à espera de serem cerzidos num fresco mais amplo que, entrecruzando vidas, nos trace o romance destas gentes que são Matosinhos.

 Um Património Humano de Matosinhos – Histórias de Homens e Mulheres da minha Terra, Eunícia Salgadinho, edium editores, 2008.

   

 

 

A. Cunha Silva, in Gilberto Russa – Universo dos Olhares

Gilberto Russa… uma pintura mística

 Quando nos encontramos perante a enigmática obra de Gilberto Russa, deparamo-nos com uma expectante decifração!… O crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida avança o sentido de uma eventual clarificação: “o artista contempla o mais fundo abismo quando se vê face a face com a mais intensa beleza”. Em Gilberto Russa, como podemos nós encontrar essa intensa beleza? Como chegar a esse entendimento abismal, mas criativo? Talvez aguardar um sinal de partida ou, como um iniciático viajante, rumar com destino ao mais fundo abismo do seu imaginário e intimismo – que pode ser o nosso!… Ocorreu-me fixar como referência para o meu “universo dos olhares” um conjunto indissociável de sete telas, as quais, e à revelia do pintor, baptizei de Septimino – não dei conta do que me esperava. No início da leitura só rememorizava a obra homónima de Ludwig van Beethoven e não encontrava outra razão senão a forte relação entre a música e a pintura. Subitamente o meu aculturamento musical misturou-se com o enigma místico da obra do Gilberto Russa e questionei-me. Porquê 7 telas? Porquê um septimino? Porque teria o pintor exaltado a sua obra em louvor de um número simbólico: “o sete corresponde aos sete dias da semana, aos sete planetas, aos sete graus da perfeição, às sete esferas ou graus celestes, às sete pétalas da rosa, aos sete ramos da árvore”. Ao acrescentar a sua obra septenária ao conjunto e percurso do seu meditativo trabalho, o pintor pode estar a atingir o alvor de uma nova fase, um novo experimentalismo, como se a classificação ptolomaica lhe acertasse em cheio: “eram sete os planetas: Titão (o Sol), Diana (a Lua), Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno; e sete os metais que o representam: ouro, prata, mercúrio, cobre, ferro, estanho e chumbo. Este paralelismo entre os astros e os metais tornou-se extensivo às sete cores do arco-íris”. Gilberto Russa materializa-se em todos estes aspectos – ele é planetário, ele é alquimista, ele é pintor das sete cores do arco-íris e, ao eleger um septimino para o seu trabalho final, pode estar próximo da meta que na simbologia diz que “o sete comporta, no entanto, uma ansiedade pelo facto de indicar a passagem do conhecido para o desconhecido: um ciclo encerrou-se, qual será o seguinte?”. Porquê uma obra septenária? “…alguns septenários são símbolos de outros septenários: assim, a rosa das sete pétalas evocaria os sete céus, as sete hierarquias angélicas, todos os conjuntos perfeitos. Sete designa a totalidade das ordens planetárias e angélicas, a totalidade das moradas celestes, a totalidade das energias e principalmente da ordem espiritual”.3 Fiquei então face a face com esta intensa beleza… uma pintura mística (talvez votiva), e, por que não, um septenário homónimo do septimino de Beethoven? Por que admito no trabalho de Gilberto Russa um acto de fé com sentimento votivo? Porque o entendo como uma interpretação dum universo cósmico e celebrante de crenças. Desde a pré-história que o homem deixa sinais dessas virtualidades, dessas crenças: as covinhas nos altares de granito, as estelas funerárias, as espirais, os astros. Também na epístola de S. Tiago podemos ler “que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obra de fé?”. A fé de Gilberto Russa não obedece à sintonia dos conceitos de santidade ou obsessão de um qualquer dogma espiritual. A sua fé é a sua crença na pintura que executa. Obra que palmilha de ocaso em ocaso, de boreais em boreais, de raízes em raízes, de luas em luas, de espirais em espirais, de esferas em esferas, ou ainda naquele pungente registo (estela funerária) que exprime no seu quadro interpretativo sobre o naufrágio de 1947. Partículas cósmicas dum universo que, podendo não ser perceptível ao leitor menos atento, ele é o seu habitat espacial de preferência. Preferencialmente, o pintor segura também o estatuto de autodidacta e esta condição (espécie de libertinagem) solta-o de conceitos estéticos espartilhados em tabelas de medições de ismos – talvez mesmo os misture a todos numa clara provocação da sua liberdade afirmativa. Como autodidacta, cruza abordagem atrás de abordagem, deixando que tomemos consciência de que a linguagem pictórica que exprime se mostre desarrumada de uma qualquer ordem racional e escolar. Assim sendo, o seu trabalho resulta de esvaziamentos de tensões emocionais: “não sendo o mundo lugar de perfeição, de composição, de arrumo, sendo ele vário e incerto aos nossos olhos, não pode deixar de ser motor de sempre de toda a arte”. Este conceito do crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida levanta uma pista e pode permitir a decifração da obra de Gilberto Russa. Quadro a quadro, a obra mostra-se com uma carga mística (uma linguagem quase votiva), iluminada por um lampadário que ofusca de luminosidade a lembrar um poema de Teixeira de Pascoais do livro Marânus: “também o claro sol, por um instante/ numa gota de orvalho se resume:/ e, nela, é viva imagem radiante/ de viva luz, acesa em sete cores”.

 Gilberto Russa – Universo dos Olhares, A. Cunha e Silva, Albano Chaves, António Mendes, edium editores, 2008.

  

 

 

 

Breve nota sobre o Autor (por José Fernando Monteiro)

A sua escrita e o gosto pela divulgação científica

Conheço António Durval Conceição Silva há vários anos. (…) Há muito que noto a sua facilidade de comunicação e expressão escrita pelos mais variados assuntos. Autor já de obras de ficção autobiográfica aplica-se hoje a um dos mais delicados domínios da escrita: a divulgação científica. Tarefa árdua – a de simplificar a ciência e o desconhecido – sempre recompensada pela atenção e resposta de leitores que passam a ser nossos companheiros e, de certa forma, nossos guias para a continuidade de uma crónica. E A. Durval, fá-lo com uma certeira segurança, textos curtos, concisos, e muito bem escritos, a despertar sempre o interesse pela crónica que ainda não saiu. Está por isso de parabéns, bem como o Jornal Matosinhos Hoje que aceitou a sua crónica “Outras Dimensões” A divulgação científica é ainda um parente pobre nos media do nosso país, quase sempre esquecida dos jornais televisivos que se baralham e repetem com notícias monótonas, chatos comentadores políticos, e o apregoar da desgraça alheia. E nuns tempos que, apesar da grave situação política e económica mundial, “novos mundos ao mundo” são apresentados, pérolas que nenhum de nós ousou pensar vir a conhecer. (…)A ciência, e em particular a cultura científica, é hoje fundamental para todo o cidadão consciente e que queira participar, não apenas pelos aspectos de descoberta e novidade, mas por ser um dos domínios fundamentais para compreendermos e enfrentarmos muitos dos problemas que hoje existem: poluição, escassez dos recursos minerais e energéticos; alterações globais; novas doenças e epidemias… Divulgar ciência é hoje uma tarefa que se impõe, não apenas a nível da formação escolar, mas junto dos meios de comunicação social. A rapidez das novidades é diária e cabe aos jornais, rádios, televisões terem rubricas e pessoas indicadas para o fazer. E aqui a descentralização é por demais importante. Para além dos casos mundiais e nacionais, a Imprensa Regional tem um papel importante, não só a relatar os novos avanços para um público mais restrito espacialmente, mas o de estudar e explorar casos locais, em que os conhecimentos básicos de ciência são importantes. António Durval mantém a sua crónica “Outras Dimensões” no “Matosinhos Hoje”. Quando lemos o seu trabalho do passado recente, vemos como ele aborda de uma” forma social, poética e científica muitos problemas de Hoje e do Futuro. Logo sugerimos que as mesmas deveriam ser publicadas em livro. É uma tarefa que recomendamos, não pelo conhecimento do autor, mas mais pelo reconhecimento que um livro sobre este assunto traria para Matosinhos, hoje uma cidade moderna e com um futuro promissor, seus habitantes, escolas e um público muito mais vasto. “Quem se Interroga está vivo!” é um livro que merece ser editado.

Quem se interroga está vivo!, António Durval, edium editores, 2007.

    

 

 

 

Introdução do autor à obra

Esta monografia tem como objectivo demonstrar o que aconteceu em Portugal após as “lutas intestinas” pelo poder no Estado Novo, antes e depois da “morte” política de Salazar; o pouco apoio que teve o último Presidente do Conselho desse regime, Marcello Caetano, para implementar reformas urgentes no País; e a publicação de um livro polémico, Portugal e o Futuro, que fez desmoronar como um “baralho de cartas” todo um sistema político: o 25 de Abril de 1974 e a “descolonização mal feita”. Bem como tentar provar que houve uma quase sintonia entre Marcello Caetano e António de Spínola, no que concerne ao ex-Ultramar português: ambos se mostraram adversários quer de um integracionismo, quer da entrega “pura e simples” dos territórios ultramarinos. Apontavam, à sua maneira, uma terceira via: ou “uma autonomia progressiva” que conduziria, provavelmente, à (in)dependência ligada sempre a Portugal, no caso de Marcello Caetano, ou uma Federação de Estados com a antiga metrópole, com Portugal, no caso de Spínola. Mas os projectos de Marcello Caetano e de António de Spínola foram derrotados pelos “ventos da mudança” e pelo efeito “bola de neve”: é o que pretendo, igualmente, demonstrar neste trabalho. Recorri a vários autores de diferentes quadrantes políticos, da extrema-esquerda à extrema-direita, de Otelo Saraiva de Carvalho a Kaúlza de Arriaga, para tentar evitar qualquer tipo de facciosismo ou de preconceito ideológico: a “independência” é uma virtude nem sempre bem conseguida!…

 

 

 

 

 

Introdução à obra por António Cunha e Silva

Leça – Espelho de Memória e Luz é um livro em busca de um tempo. Quantas vezes esboçamos um espaço urbano e humano à procura de um “habitat” para nos sentirmos apoiados naquilo que fomos – ou no que nos transformamos. Este livro recua na identidade desse tempo. De encontros em encontros, foi-me pedido um dia, para escrever um depoimento destinado ao álbum de autógrafos do pintor António Mendes. Assim nasceu o texto, “A pintura é o seu segredo”, o embrião simbólico deste livro. Foi o encontro com o seu pensamento, carácter humanista, a sua arte plural. Motivados pela afinidade e movidos pela curiosidade sobre Leça, começamos a montar um puzzle unindo todas as peças dos assuntos de conversas e encontros desses vários dias. Surpresos acabamos por chegar a “Leça – Espelho de Memória e Luz”, livro que se reflecte na miragem do tempo e na memória de histórias várias: orais, escritas, poetizadas, plásticas. Destaco do conjunto de imagens, as obras inéditas de António Mendes, que, de forma surpreendente, se adaptam ao texto “Eu conheço-te luz de Leça!”, trabalhos que reforçam a leitura da memória descritiva de factores históricos e evolutivos da paisagem urbana de Leça da Palmeira e que nos assombram como numa narrativa. Importa dizer que este espólio documental, assenta num labor desenvolvido durante três décadas. Trabalho apoiado em pesquisas, leitura e interpretações sobre documentação fotográfica ou outras. Facto a assinalar, pois verifica-se que António Mendes se ofereceu à sua terra natal numa espécie de causa monástica, acto de sublimação ou encantamento. Em conclusão, este livro, procura de forma simples situar o lugar com o seu mito e sagração, sem que se ofereça tanto no conceito da sabedoria, antes mais, no generoso e motivador impulso da oferenda O mérito é de Leça! Mancha de terra doirada, banhada por água salgada e doce, espécie de relógio de sol, que marca as horas de todos os encontros. Encontros de todos os tempos.

 

 

 

 

 

Introdução à obra por Arde Parud

O amor altruísta ao próximo é a alteração radical e definitiva de tudo o que até agora temos entendido como poder mundano; é a alteração absoluta, radical e definitiva de tudo o que entendemos por dinheiro. Esta singular alteração só se pode concretizar através de cada um de nós porque é cada um de nós que tem de querer esta alteração como sentido da vida. Não se trata da mudança do mundo e muito menos da mudança da sociedade ou da consciência humana, mas sim da mudança espiritual e mental de cada pessoa, que deve passar de dispersões por dependências efémeras à certeza da unidade eterna e imutável. É um esforço incrível e aparentemente sobre-humano e a ultrapassagem de tudo o que a morte quer e de tudo aquilo que quer ficar morto. Aplicado à nossa vida actual, isso quer dizer que o conceito do “Homem como centro do mundo” já deixou de existir e que, pelo contrário, é o mundo todo que é o Homem total. Esta visão, expressa simultaneamente por pensamentos e crenças, é tão estranha que em última análise só pode ser compreendida por aqueles que a praticarem livre e abnegadamente, sem estarem ligados à morte de uma sociedade passada, com os seus atributos já inexistentes de poder e dinheiro, porque para eles o que até agora vigorou, o passado, não tem sentido nem consistência e perdeu qualquer aspecto de segurança. De forma absoluta, radical e definitiva. Estas pessoas têm de praticar a meditação do tempo e do espaço “como Adão e Eva”, deixando ficar a apodrecer no chão, ao pé das raízes, a maçã da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, porque não é a maçã, o fruto, que é eterno, mas sim a árvore, as raízes e a terra onde as raízes vão buscar a força de tudo o que é vida. Aí, sim, há a concretização de tudo o que nós, humanos, temos entendido, entendemos e entenderemos por esperança, isto é, estas pessoas já não procuram esperança nem a sua concretização, quer por meio de símbolos, quer por meio de instituições, mas são em si mesmas simultaneamente esperança e concretização da esperança. Esta visão grandiosa é a luta ininterrupta de cada pessoa contra si própria e contra o conceito simbólico e ultrapassado de poder e dinheiro. É por isso que esta visão não é compreensível – ou apenas o é em escala reduzida – para aqueles que se apoiam no passado de poder e dinheiro como valor para medo ou liberdade, confundindo esse passado com o presente. Enquanto persistirem nesse erro como sendo o seu futuro, a sua participação na visão da unidade da Humanidade como unidade de toda a vida será desde logo uma batalha perdida. E no entanto, até mesmo a concretização da desesperança pela sua própria destruição é esperança. Temos de esquecer o sentido e os símbolos, a essência e as consequências da falta de esperança como se nunca tivessem existido. Mas quem ousaria – pessoa ou instituição – julgar e condenar esses conceitos de tal maneira que a sua lembrança não possa ser reencontrada no futuro como esperança na terra da raiz da árvore? Esta pergunta pertence também à visão da mensagem. Uma coisa é certa: Se a dimensão desta visão da Humanidade não for compreendida hoje, terá de ser compreendida amanhã, de livre vontade ou à força, na teoria ou na prática, entre lágrimas ou entre sorrisos. A própria negação faz parte do reconhecimento da necessidade de uma visão de um ser humano com os biliões de almas e da sua realização através desse indivíduo. Um indivíduo no qual os biliões de almas têm de se fundir numa única se e quando a família, a nacionalidade ou a raça já não lhe concederem qualquer identidade ou refúgio. Vamos ter de viver e sofrer essa perda porque queremos viver e sofrer o princípio egoísta da própria morte, o materialismo. De livre vontade ou à força, na prática ou em teoria, entre lágrimas ou entre sorrisos. Enquanto assim for, a preciosa herança ficará reservada como “herança desconhecida” para o herdeiro. Só depois deste se ter identificado com a sua herança é que esta se tornará conhecida e será o mundo. Nós, que ainda nos encontramos nas malhas do passado, que não queremos nem podemos viver essa herança, não poderemos falar de uma tal visão, de uma tal herança, como utopia? Será isso o mesmo que dizer que uma tal herança será realmente, verdadeiramente e para todo o sempre, uma utopia? Quem não quiser nem puder viver a herança não terá que enfrentar essa decisão e é exactamente por esse motivo que essas pessoas são e continuarão a ser alheias à herança, à visão, à mensagem da espiritualidade política e do fim da culpa humana, ao amor altruísta ao próximo.

 

  

 

 

 

Introdução à obra pelo autor.

O grupo de crónicas reunidas num volume correspondem a uma colaboração no “O Comércio de Leixões”, concentrada especialmente a partir dos anos 80, a par duma colaboração muito mais recente e espaçada no “Matosinhos Hoje” que, um e outro, sempre me abriram espaço para publicar as minhas recordações de imagens há muito desaparecidas ou outros textos escritos abordando temas mais genéricos. Por tal razão julgo que se justifica a sua separação, considerando um primeiro grupo focando aspectos de costumes, circunstâncias sócio-culturais ou mesmo imagens desaparecidas do mundo matosinhense face uma rápida transformação urbana, a par de outras circunstâncias de uma muito maior escala. De qualquer modo os temas tratados são parte das histórias contadas há muitos anos a um menino feliz ou, consequência do sentir dum matosinhense que sempre vibrou especialmente com a orla de Matosinhos-Leça e, de modo semelhante, com o mar fronteiro, entre a Praia do Molhe e a Boa Nova tão vivido durante as muitas horas que velejei nos sharpies, com um velame de 12m2 da MP e também nos primeiros snipes da Mocidade, o 6794 e o 6795, ou já nos snipes 9029 e depois no 18983, ambos adquiridos pelo gosto de sentir a dinâmica do mar, tudo isto muito depois de me ter iniciado nos lusitos quando teria à volta dos meus 12 anos. Outros escritos correspondem a leituras acidentais, cujo conteúdo, me fez lembrar qualquer coisa em que Leça ou Matosinhos teriam também presença.

 

 

 

 

Da nota introdutária à obra, pela autora.

“José da Silva Passos – o Espelho Translúcido” é uma ousadia e um desafio nascidos da paixão pela vida e obra deste guifonense. A história política nunca nos seduziu. Sempre nos deixamos conduzir numa óptica de investigação que permitisse conjugar a vertente da história económica e social com a investigação ligada à imprensa em geral e ao publicismo tecnológico de uma forma muito particular. Quando em Abril de 1996 defendemos a nossa dissertação de mestrado em história moderna subordinada ao tema O Jornal da Associação Industrial Portuense – Contributos para o Estudo do Publicismo Tecnológico no Século XIX (1822-1864), ficamos com imenso material de pesquisa relativo a esta personalidade do nosso liberalismo pelo qual sempre nutrimos um interesse e uma curiosidade muito especiais. Assim, é com natural e particular entusiasmo que agora acolhemos a oportunidade de dar a conhecer este interessante e invulgar vulto, que tantas vezes nos habituamos a analisar umbilicalmente ligado ao seu irmão, como “dois tomos de uma obra com a mesma encadernação”, como tantas vezes o afirmou Manuel da Silva Passos. Esta obra, não pretende ser uma abordagem biográfica. O estudo biográfico sobre o percurso pessoal e político de José da Silva Passos, inserido numa óptica de valorização e divulgação da história do concelho de Matosinhos, já foi efectuado por Maria do Carmo Serén no livro Novos Apontamentos para a Biografia do Cidadão José da Silva Passos, publicado pela Câmara Municipal de Matosinhos em Novembro de 2001. Assim, no ano em que se comemoram 150 anos da primeira exposição industrial no Norte, este trabalho pretende essencialmente evocar a importante actividade que José da Silva Passos desenvolveu ao serviço da entidade promotora desta iniciativa, a Associação Industrial Portuense, enquanto sócio fundador e presidente da direcção, numa fase da sua vida em que, não obstante a sua saúde débil ainda consegue contribuir de forma decisiva para a incontornável afirmação do norte do país no contexto nacional e internacional. Mas, porque a iconografia também é fundamental para o desenvolvimento e prossecução de novos estudos, consideramos absolutamente imprescindível dar a conhecer algumas das actas manuscritas desta agremiação durante a sua presidência, bem como contribuir através de uma análise de quadros de “inputs/outputs” para uma nova abordagem e novos desafios em torno do Jornal da Associação Industrial Portuense, a muitos níveis, como já várias vezes afirmamos, uma publicação emblemática e imprescindível ao estudo do associativismo, do mutualismo e do publicismo tecnológico em Portugal.

José da Silva Passos, O Espelho Translúcido, M.ª Elvira Rodrigues Castanheira, edium editores, 2007.

 

 

 

 

do preâmbulo à obra, pela autora.

Este livro pretende revelar, sem se assumir biográfico na sua plena acepção, a vida de dedicação e paixão que Joaquim Neves dos Santos entregou à arqueologia e à etnografia, bem como o seu valioso contributo para a reserva da nossa memória patrimonial e da identidade cultural do Concelho de Matosinhos. Foi durante o meu percurso académico, logo após ter realizado um trabalho bio-bibliográfico sobre Joaquim Neves dos Santos, que senti o desejo de ir mais longe e registar um pouco da sua vida e obra, despertando, assim, as lembranças e consciências de matosinhenses e amantes da arquelogia para o legado que ele nos deixou. Desde logo, criei uma enorme empatia por esta personalidade, pela sua subtil humildade e determinação com que perseguia os seus objectivos e defendia as suas convicções – o meu trabalho ia crescendo com a crescente admiração por este homem. Matosinhos deve-lhe muito. Se hoje nos podemos debruçar sobre o passado histórico da cidade e estudar as suas raízes ancestrais, é nos manuscritos e publicações de Joaquim Neves dos Santos que encontramos muitos desses registos. Não olhando a meios, apenas com recursos próprios, deixou-nos um património de valor incalculável. Pertence-lhe a elaboração da primeira Carta Arqueológica do Concelho queconserva, desde então, a mesma actualidade. Arqueólogo de alma e coração, Joaquim Neves dos Santos concentrou o seu trabalho no estudo da cultura material. Para ele, os “cacos” eram sinónimo de vida, retinham a história de quem os produziu e utilizou, reflexos de um tempo e de um povo. Ao estudar a cultura ancestral, ainda que material, procurou as origens de uma civilização que precedeu a História e toda a complexidade das interacções sociais, económicas e psicológicas que lhe são adjacentes. Deste modo, chegou ao Homem. Tendo em conta a contextualização da arqueologia na época, Joaquim Neves dos Santos foi um estudioso das diversas valências de uma disciplina que permanentemente se renova à procura de um passado longínquo. O seu nome ficará para sempre indissociável da história da arqueologia matosinhense. Se este livro contribuir, de alguma forma, para melhor conhecermos um homem que dedicou a sua vida ao estudo das origens da sua terra, então, valeu a pena.

Joaquim Neves dos Santos: Amor pelo Passado, Conceição Pires, edium editores, 2006.

 

 

 

 

Do prefácio de Rita Lobo Xavier à obra

(…) Num tempo em que toda a gente escreve livros que divulgam a sua vida privada e alimentam o voyeurismo de toda uma população, é uma bênção encontrar um livro que descobre a interioridade de uma pessoa sem ser intimista, nem implicar esse tipo de devassa. É claro que estão presentes vários planos, vários níveis de vida interior, pressentimos as diversas “vias” que lemos nos livros clássicos de espiritualidade, adivinhamos experiências do amor de Deus quando a Autora fala de “oração de abandono”, do “sentir da alma na intimidade com Deus”, de “sentir o Amor de Deus dentro da alma”. Mas há sempre o cuidado de não referir experiências próprias, de as ver “de fora”, adoptando mesmo uma perspectiva objectiva, concretizada em injunções, intimações, conselhos. Maria Fernanda Guedes de Amorim assume, por vezes, um tom didáctico e doutrinário, como quando explica as diferenças entre a Missa e o Sacrifício da Cruz, ou o papel do Sacerdócio Ministerial. Noutras alturas, faz seus “gritos” que Deus já fez brotar de outras almas que quiseram entregar-se cada vez mais, como quando manifesta a sensação de que “se está sempre no começo, nos primeiros passos”; ou quando refere a ideia de que a vida deve ser “vivida como uma Missa”, de que se deve fazer de cada dia uma Missa, de que a Missa é o eixo da vida interior; ou quando sugere “a entrega no altar do coração”, “a entrega na patena”, a entrega diária na Missa. Também há pequenas preces, dirigidas directamente a Deus: “Senhor, que tudo nos sirva para Vos amar!”. O desenvolvimento e extensão dos temas é desigual. Mas a contabilidade das páginas dedicadas a cada tema é reveladora: a humildade bate o recorde do número de páginas. Mas, como habitualmente acontece, a estatística é cega. As razões da inclusão de cada pensamento num ou noutro capítulo não são imediatamente perceptíveis; porque está “tudo relacionado”; porque, no fundo, o “fio condutor”, como nos ensina a Revelação, a Doutrina e a experiência cristã, parte do Amor de Deus e leva à resposta amorosa de cada um, à Entrega em Liberdade. Julgo que estes temas aparecem em todos os Capítulos: os paradoxos em que nos debatemos, nós, pobres criaturas, a liberdade da entrega, a liberdade como entrega amorosa (“somos livres quando amamos”, “a medida da nossa liberdade é a do nosso amor”, “a medida da nossa santidade é a medida do nosso amor”), a liberdade como um desígnio de Deus, como a obrigação de fazer tudo o que Deus quiser. E, por isso, o Amor está em cada pensamento e não apenas no Capítulo III, em que existe uma reflexão específica sobre as várias vocações de amor (vocação sacerdotal, vocação ao apostolado, vocação matrimonial). Porque amar é ser “familiar” de Deus. O sub-título compreende-se. Embora existam poucas referências explícitas a S. Josemaria, há muito “dele” nos temas, no estilo, nas expressões, nas fórmulas. É natural, porque os filhos acabam por se parecer um pouco com os pais e, sem se dar conta, têm atitudes, gestos e palavras que nos recordam os dos pais. S. Josemaria “está” na “hierarquia do amor”; na insistência na ideia de que nos devemos “tornar” cada vez mais filhos de Deus, como um objectivo a atingir e não como um ponto de partida; no entendimento de que “orar é amar”, “saber que o Senhor está ali, nos ouve, nos vê”, que nos remete para a fórmula introdutória que habitualmente este santo utilizava antes de começar a rezar. É tudo isto que me faz dizer que este livro vai ser um grande estímulo para a vida interior dos seus leitores.

A grandeza do minuto que passa…, M.ª Fernanda Guedes de Amorim, , edium editores, 2006.                                                   

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