LIVROS POESIA

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I
partículas
         *
areia
areia
areia grão ou conjunto?
areia amada
areia cama
de seus próprios cansaços.
areia tão pisada…

II

sou fumo, sou pedra
     * 
 persigo sonhos antigos
pela estrada do sem fim
           * 
elevo meu corpo
projecto-me para cima
|lentamente|
fumo a subir no ar
      *
agito minhas mãos no vento
em jeito de agarrar
     *
sou fumo, sou pedra
caíndo a prumo
persigo o sonho antigo
do amor universal
persigo o sonho antigo
da paz e justiça social
            *
persigo o sonho antigo
sonhando-o
persigo-o.
     *
perseguindo-o encontro
o triste real
            *
sou fumo, sou pedra
caíndo a prumo.
           *  
Conceição Paulino, |meu país é um sonho sonhado|, 2009, Edium

 

O SEGREDO DOS CONSTRUTORES DE CATEDRAIS

I

Entre o que sinto e o que sou Desconheço-me tão só

Os caminhos que sigo Sou porque não vou

Estou entre o silêncio e o pó

 

Entre a morte e a vida Espero o esquecimento

A minha memória é indefinida

Mas é atlântico o vento

 

II

Minha poesia na mão de quem má deus ponho

E percorrerão a terra ondas de vento

Toda a vida cobri o Tempo de Sonho

Um dia cobrir-me-á o Sonho de Tempo

 

Joaquim Fernando Fonseca, Portograal, edium editores 2006.

 

I

 il batideru di mis bezus/                               

quero dizer: il batideru di mis bezus             

si sintirá in tu pasadu

cun mí in tu vinu/

 

avrindo la puarta dil tiempu/

tu sueniu

dexa cayer yuvia durmida/

dámila tu yuvia/

 

mi quedarí/quietu

in tu yuvia di sueniu/

londji nil pinser/

sin spantu/sin sulvidu/

 

nila caza dil tiempu

sta il pasadu/

dibaxu di tu piede/

qui balia/

 

  I

  o tremor de meus lábios/

quero dizer: o tremor de meus beijos

será ouvido em teu passado

comigo em teu vinho/

 

abrindo a porta do tempo/

teu sono

deixa cair chuva adormecida/

dá-me tua chuva/

 

ficarei/quieto

em tua chuva de sono/

longe no pensar/

sem espanto/sem olvido/

 

na casa do tempo

está o passado/

debaixo de teu pé/

que baila/

 

Juan Gelman, dibaxu/debaixo, trad. Andityas Soares de Moura, edium editores, 2007

 

 1.

 Há um lago no rosto da casa

aberta

na face das tuas mãos.

 

Talvez

somente os teus olhos

o desvendem.

 

Talvez o vento

de passagem

em ti recolha

 a Invenção de Eros.

 

  

Variações sobre tema de Vítor Matos e Sá: A Invenção de Eros, Xavier Zarco, edium ed. 2006

Prémio Poesia Vítor Matos e Sá 2007, org. Conselho Científico Fac. Letras da Univ. de Coimbra

 

em esquéria há frutos todo o ano
e se houve tempo em que pude amar
ao som das espingardas, hoje eu quero
uma árvore de jacarandá
 
florir lilás. na abóbada florida
ando pelo caminho de telémaco
com as asas de atena; beijo o mar
como se é o ventre de minha mãe.
 
sem deus sicário, áugure ou conciliábulos
da mais ridente e vã  feitiçaria
demoro na colecta da semente
 
e no apetite da voragem morro
abraçado ao tronco do esquecimento;
enfim, chegado à terra da alegria.

 

Travessia, José Félix, edium editores, 2007

 

 Da Humana Condição

 

Das rotas dos princípios disto tudo,
emerge o verbo – essência de água e lodo.
Das tábuas que quiseram ser um todo,
não resta nem espada, nem escudo.

O verbo, sem sentido, anestesia
a dor que prolifera e que subjuga.
Já nem sequer a mão canhestra enxuga
a lágrima que dói e tomba, fria.

Casado o desespero com a ira,
irrompe da cratera a violência
na lava da vergonha e da mentira.

Suspenso do mistério da existência,
dedilho, em desespero, a minha lira,
vergado à perdição da minha essência.

 

Da Humana Condição, José-Augusto de Carvalho, edium editores 2007

 

III. PAX ROMANA

  

Tu, deitada no templo, decifrando as

escuras pilastras da casa, ouve

minhas palavras metálicas. Ainda

hoje saborearei teu corpo, quer

m’ofereças, quer não. Jasmins

tenho em minha carroça para

impressionar teus gostos arrojados.

Serei um afável salteador, roubando-te

as mais pecaminosas

excitações cerebrais. Ainda hoje tu

te deitarás comigo no prado.

Afastemo-nos da cidade. Então

apresentar-te-ei vários elixires, temperos

raríssimos.

 

   Os milênios serão nossos confessores.

 

Algo indecifravelmente veloz, Andityas Soares de Moura, edium editores 2007.

  

Poema na Vertical

 o carpinteiro bate a vértebra no sangue,
um jovem corre na raiva da desordem,
como um relâmpago a palavra carne é a palavra vida
e o poeta não abre nem fecha a essência numa
ampulheta de areia.  O carpinteiro já conhece
as artes de fazer o fogo da alma. És belo. És anjo

 desce por dentro de ti
e descansa dentro das botas
do tempo

a ampulheta do teu corpo constrói-se em trapézios
mágicos. A vértebra regressa ao lugar

o poema é o sangue adiado noutro grito
e a sensível ave branca de uma rosa
que te ofereço. És belo. És anjo

desce no copo da vida e como a água
assume a sua forma
transparente e
v
e
r
t
i
c
a
l

 

Fractura Possível, José Gil, edium editores 2008.

  

 

 

  

São asas de Deus

 

Observo-te nua de cores,

Asas o vento mastiga ao teu redor,

Alma sincera te aguarda,

Destino dos homens devorar de ti

O que a alma guarda.

 

Por entre pétalas pestanejando

Sobrevoando o rio materno

Água doce da cor de um sonho

Agarra-te consumida

Nas mãos do Inverno.

Observo-te nua e perfeita

Num ritual sombreado de desconjuntura

São palavras mentidas ao vento

Nos lábios despidos de ternura.

 

Vestes do pó da terra a vida

Lá longe ainda se escutam sorrisos

Não fosse o horizonte tão distante

Serias tu verdadeira e, nós, submissos.

 

Respira-se ainda um pouco de sol

Rasgaste os céus com palavras mudas

As mãos no alto suplicam a um deus

Que tragas voando nas asas tuas.

 

Esperança…

Esperança.

 

Fui… o que já não sou!, Paulo Themudo, edium editores, 2008

  

  

 

 

 

O SONO DAS AVES

 

os homens contam os anos
à medida do sono das aves

debaixo da serrania e das neves,
alevanta-se um vasto império,
onde os reis não quebram,
refulgem e dormem em
romaria de corpos duros, não
vendo o deus que carrega aos ombros
a campina negra, a voz dos
viajantes que vão passando

regressam a um tempo em que
as aves marcavam as horas e
as resumiam na cronologia de
um verso

 

Ascensão do Fogo, Jorge Vicente, edium editores, 2008

 

 

 

 

 

 

ideia para um autógrafo

 

 

o amor é uma casa onde cabem dois corpos

e os gestos entre eles.

imaginemos que não se pode falar

e coloquemos uma ameixa madura no lugar da boca.

qual dos amantes dará o primeiro beijo?

a noite não tem olhos. um corpo sabe do outro corpo

apenas porque cheira. um corpo não sabe quem é o

outro corpo. são um homem e uma mulher.

mas, no silêncio, só há dedos e línguas.

o toque é a linguagem, a magia de ser vento numa carícia.

e assim conversam os amantes.

imaginemos que podem escrever uma palavra.

têm apenas o corpo um do outro. e, no lugar da boca,

ameixas que sangram beijos. quando as línguas se afastam,

a noite abre os olhos com ternura.

os dedos dele penetram o corpo dela.

no momento em que ele vai escrever

uma palavra no seu interior,

nesse exacto momento em que o amor é um gesto circular,

e a voz apenas um fio, ela sussurra:

escreve o teu nome.

 

 

 o ciclo menstrual da noite, alice macedo campos, edium editores, 2008.

 

 

 

 

 

 

 Irei ao Hades

 

 

Eu irei ao Hades buscar-te,

preso a mim pela boca,

pelo sonho que me fizeste

parir nos meus passos.

Irei trocar-te pelas minhas palavras,

por essa noite escura,

ficarás cá em nome brilhando,

que é muito mais que as estrelas

que se reflectem nos meus olhos,

por seres mais em saudade,

que o brilho aparente da luz.

 

Irei ao Hades jurar-te que Zeus

se arrependerá da ambição

de reinar um mundo

onde o teu olhar não verá.

 

Irei ao Hades resgatar-te

em todos os poemas que foste,

para que Gaia te faça cá em energia tão pura,

e se faça de novo a fresca manhã.

 

 

Gravado no Tempo, Constantino Alves, edium editores, 2008

 

  

 

 

todos partem

 

emoldura-se de pó

a distância

 

uma lágrima

cumpre o seu mistério

descendente

 

quem regressa

serenamente aguarda

a estação das colheitas

 

conjuga as cinzas

com o verbo da terra

 

O Livro do Regresso, Xavier Zarco, edium editores, 2008-

Prémio de Poesia Raúl de Carvalho, 2005

 

 

 

 

V – Sob a epígrafe Anderson Santos

 “quenteúmido pouso de poesias”
Anderson Santos

Dos acúleos o mel volta às folhas
no chão as camarinhas despem-se,
a língua mole escalda.
Água e pântano ou corpo rebentam
no frontispício desta calda.
O mel volta verme.

 

Nascido tarde, Ana Maria Costa, edium editores, 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PENAS VIVAS

  

Dizer que as penas vivas doam mais

Do que as mortas, será talvez verdade!

Estas deixam o aroma da saudade

Aquelas vão contigo aonde vais.

 

Cravando-te os caninos infernais

Vão sugando o sangue da vontade

De lutar com vigor e liberdade

Por aqueles a quem se ama demais.

 

Gota a gota, o sangue se derrama,

Deixando a seiva viva anemiada

Sem força para arder na sua chama.

 

Escondida, dorida, esfarrapada,

A alma em sofrimento em vão reclama

Que volte a esperança amortalhada.

 

Ensaios em dó menor, Maria Carmen Lino, edium editores, 2008.

 

 

 

 

 

AO ENCONTRO DE NADA

  

Nas entranhas da noite,

os minutos ordeiramente perfilados

desfilam intransigentes

na sua marcha voraz e compassada

 

nem uivo de bicho

nem pio de gente

nem silvo de ave

 

Imperturbável, o silêncio

rasga a cortina intransponível

das trevas

e  irrompe contra um tempo

que corre veloz

ao encontro de nada

 

Ao Encontro de Nada, Ercília freitas, edium editores, 2008

 

 

 

 

RIO DE SAL

 

Rio de sal que desliza,

Na encosta suave…

Dança no seu leito, em contornos perfeitos…

Brilha como diamante, na luz que trespassa,

Reflexos que acendem rastilhos a quem vê,

Prisma de cores em encantos puros,

Majestoso e simples…

Nas gotas que caem e caem num espaço infinito…

Auras que cintilam em pérolas de pequenas estrelas…

Intemporais, deslizam num tempo que abraça.

Poderoso rio de sal que caminhas sem parar,

Que corres, lentamente, no lento morrer dos dias,

Vazio, cheio de tudo,

Sentimentos puros de tempestades vividas…

Batalhas ganhas e perdidas, que alimentam o crescimento,

Marcas de diferenças no estado de espírito que alimentas,

Numa alma que espelha o coração, que bate em seu peito,

Compasso de harmonia em ritmos perfeitos.

Gotas perfeitas de gosto amargo e doce…

Com o sal que tempera o sentimento,

Transportas uma vida com sentido,

Num sentido que é dado à vida…

Como palavras por vezes esquecidas…

Que a boca não diz, que morrem no tempo,

Névoas que envolvem e que, timidamente, escondem,

Refúgios sempre presentes em guaritas bem guardadas,

De sílabas perdidas de mensagens tantas vezes escritas,

De poemas que se soltam ao vento…

Rio de sal que deslizas,

Porque és feito de lágrimas, que caem lentamente…

Sensibilidade de quem chora, e sente.

 

 Rio de Sal, Luís Ferreira, edium editores, 2008.

 

 

 

 

 

 

 

porque é simples a palavra

com que se molda o dia

e frágil o sentido

das coisas mais belas

 

um pão nas mãos da fome

um ribeiro na boca da sede

uma ilha no olhar de um náufrago

 

por que feres os passos

e traças a sangue

a via do poema

 

Nove ciclos para um poema, Xavier Zarco, edium editores, 2008

Prémio Literário da Lusofonia 2007

 

 

 

 

Um simbolismo platónico, profano

Trasladado de um tempo já findo

Como um pedaço de fertilidade

Crescendo no útero materno.

Anuncia em mim a nova vida

O novo tempo precoce se adivinha

A verdade déspota e mesquinha

O triunfante rasto da imortalidade.

 

 

 

Alma Suspensa, Elis Bodêgo, edium editores, 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PSYCHONAUT

  

There I lay,

Dreaming,

Awake, if only inward,

Travelling the vast expanses

And dimensions

Of self-unconscience…

Drifting through the limitless void

Of a self-contained universe,

Sprinkled with the brightest stars

And planets etching strange orbits…

Each inhabited by wondrous creatures

And marvelous monsters,

Veiled by moons and embracing rings…

Black holes inscrutable,

Super-novas blinding,

A prisoner only

To the confines of my vision

And the horizon…

I bathe in nebulas

Taking exquisite delight

In seeping and merging

Into their liquors

Melted by the warmth of a thousand suns,

The ticking of clocks but ripples

In the liquid fabric of space…

My skin crawls

As galaxies rustle

And stardust brushes

The back of my neck,

Playing with my hair.

Shooting stars,

Fleeting hopes,

A ballroom dance

To a soundless tune…

… A mute messiah singing Creation…

The stained glass shatters

Into a multitude of gleeful,

Sharp, colourful shards,

As gravity hums me a lullaby,

Rocks me to sleep

Amidst midnight-blue sheets of tangibility…

 

 

PSICONAUTA

 

Lá me deito

Sonhando,

Desperto, no íntimo,

Viajando na vasta imensidão

Nos domínios

Da auto-inconsciência…

À deriva no imenso vazio

De um circunscrito universo,

Salpicado pelas mais fulgentes estrelas

E planetas que gizam estranhas órbitas…

Povoados de assombrosas criaturas

E maviosos monstros,

Velados e coroados por luas…

Buracos-Negros impenetráveis

Super-Novas encegueçantes

Um mero cativo

Prisioneiro do deslumbre

E do tangível horizonte…

Na nebulosa me banho

Em excelsos deleites

Imergindo-me, possuído

Nos seus eflúvios

Levedados pelo calor de mil-sóis

O esgotar do tempo murmurante

Na textura liquefacta do espaço…

A minha pele arrepia-se

À poalha sussurrante

Das galáxias que me afaga

O pescoço, a nuca

E brinca com os meus cabelos.

Estrelas cadentes,

Esperanças fugidias,

Um salão de dança

Para uma melodia sem som…

… Uma ode muda a Messias…

Estilhaços de vitrais

Desferidos em júbilos corais,

Afiados, fúlgida estilha,

Enquanto a gravidade me murmura

Cânticos de embalar

Por entre a mortalha nocturna da tangibilidade…

 

Etéreo, Miguel Rocha dos Santos, trad. Jorge Castelo Branco, edium editores, 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PÉGASO

 

Corre o cavalo alado

Fugindo ao

Tempo

 

Num frenético cavalgar

De crina e a cauda ao

Vento

 

Trote cadenciado

E relinchar

Frequente

 

Esplendoroso de agilidade

Vive na sede de inspiração

Morta na fonte de Hipocrene

Por toda a eternidade

 

 

À Rédea Solta, M.ª Emília Costa Moreira, edium editores, 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SE EU DEIXASSE DE ACREDITAR

 

Se eu deixasse de acreditar

Em muitas coisas que ainda acredito

Se eu deixasse de acreditar

Em palavras que a minha boca não diz

Se eu deixasse que as minhas mãos

Dedilhassem a guitarra

Dela fizessem um corpo

Que eu amasse, possuísse

Como nunca possuí palavras que não digo

Então, sim,

Talvez eu voltasse a respirar

A falar com o Silêncio

A viver com a Solidão

Mas nem ele nem ela me conhecem

Nem ele nem ela querem conhecer-me

Nem eu tenho a certeza

De os querer reconhecer

Como dantes

Em que o Silêncio dizia

As palavras que a minha boca não pronunciava

Sol, estrelas, pássaros, céu, nuvem

Pássaros cantando, como quem dança

E dança dançando como quem canta.

 

Tempo Maior, Luísa Carlos Martins, edium editores 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nada se ouve…

… neste sítio!

Nada se lê nestas palavras!

 

O silêncio chegou barulhento…

Apenas e só ele se ouvirá!

 

O silêncio chegou com vontade de escrever…

Apenas e só ele se irá ler!

 

Ele chegou para ficar…

 

Sentada na areia, Joana Moça edium editores 2008

 

 

 

 

“Março findava e chegaste com as andorinhas…”

porém, quando o Verão findou e pronúncios de frio chegaram de

Oriente, partiste com elas.

Apesar do tempo e da distância, deixei na mesa e toalhe de linho

bordada, onde as papoilas parecem ter vida, à espera que a Primavera,

te traga para o almoço.

E quem sabe, amnhã será Primavera!…

(Maria Mamede)

 

“Há um parte antiga

que quer fugir de ti ao meu encontro.

Mas existem ainda outras partes que te seguram ao cais para que não arrisques a viagem”.

(Albino Santos)

 

 

Quem sabe, amanhã será Primavera, Maria Mamede e Albino Santos, edium editores 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho cinco minutos do tempo que resta, tenho uma caneta em que a tinta lhe falha e falta-me a força, ainda assim, num último fôlego tenho uma voz rouca que procura por ti… em vão!

Ainda me faltam tantas palavras em tantas melo­dias para cantar ao teu ouvido, num cúmplice segredo…

E tu? Que sempre desejaste esse momento, sem nunca o pedires, sem que os teus olhos escondessem esse desejo em que um dia neles o li… e nunca tive a coragem de assumir essa interpretação como a correcta, como a real…

Agora é tarde demais… porque te perdi! Agora é tarde demais, essencialmente porque me perdi…

Nem o tempo soube gerir, para oferecer a minha despedida!

 

 

 

 

 

 

 

 

Mínimos Instantes, Paulo Afonso Ramos, edium editores 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nem fogo nem chama me colocaram aqui;

Neste promontório de tons desluados

Que me coube em prisão.

Aqui passo o círculo perpétuo do meu suplício,

Aqui me é cobrado o preço dos meus fios.

Férrea estaca que me amparas, minha bengala neste ocaso,

Brande alto o teu braço,

Alonga da vista esses predadores de asas,

Esses carnívoros de penas que me circundam.

A imolação não é consentida, nem concertada.

É um purgatório esta minha espera de mil zénites,

Esta desilusão que não arranja término.

Deuses, libertai-me desta punição justa, sede parciais;

Esquecei que foi a vida o meu furto, esquecei-o, ó Parcas.

Naquele novelo sustive em mãos o meu porvir e o de outros;

Esqueceu-me a sua fragilidade, soltei-o em pedaços de éter,

Lancei-os pelas vias do esquecimento,

Por essas estradas do oblívio.

Sou a minha tentativa falhada, meu próprio fracasso;

O fio que me cabia extraviou-se em ar.

Ou talvez seja este mesmo cordel que me segura

Rente a este poste com vista para as vagas do mar.

Talvez que nunca fosse outro

E apenas a ambição o fizesse mais entroncado.

Surgem os dias e vão-se no mesmo sol,

Mas eu, que dos astro falto a constância,

Vagueio por mil modestas mortes

Sem me deter em nenhuma.

Observo o voo planado das árvores,

Os ventos dos gaviões de bico;

Sei que futuro e destino nos unem

Com laço pouco terno. Mas não ainda,

Ainda não teve início o último confronto da carne.

 

 Prometeia, Rita Mello Ferrreira, edium editores 2008.

 

 

 

 

 

ANÁTEMA

 

As minhas noites são

um turbilhão de sonhos

e pensamentos.

Estranhas combinações

concebidas sem nexo

que a noite vai esgotar.

 

E pergunto a mim próprio,

perplexo,

se não serei eu

o verdadeiro enigma

a decifrar!

 

Madrugada sem fronteiras, Albino Santos, edium editores 2008.

 

 

 

 

 

liberta o corpo

o tronco verga à posse dos sentidos

 

o aroma do desejo

a analepse

dos gestos

 

memória fina, turva.

 

Lições de Eros /um/, José Félix.

 

 

quando me ergui

da terra

compreendi

 

que os passos são golpes

 

sulcos

de um arado

para o regresso da semente

 

Lições de Thanatos, /um/, Xavier Zarco.

 

 

Lições de Eros / Lições de Thanatos, José Félix, Xavier Zarco, colecção versoREverso, edium editores 2008.

 

 

 

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